domingo, 24 de junho de 2012

Novela mexicana de qualidade


Existem muitas séries por aí e algumas você deve passar longe. São aquelas que apostam tudo, acham que vão revolucionar o mundo do entretenimento, subestimam sua inteligência e tudo acaba indo para o fatal cancelamento. Outras, começam ruins e vão melhorando ao longo da temporada, muitas vezes transformando-se em uma das melhores coisas do ano. Mas, também, há o caso daquelas séries que são realmente muito ruins, sabem disso, não tentam disfarçar e conseguem deixar o público sem piscar em todos os episódios. "Revenge" é o mais novo exemplo de que, quando o enredo não ajuda muito, a forma de se contar uma história pode ser realmente genial.

Vamos lá. Você já deve ter visto inúmeras novelas com vingança como pano de fundo, mas nunca viu vingança com tanta gente rica, bonita, sem ocupação e que vive fazendo caras e bocas que te deixam chocado. Beaseado no livro de Alexandre Dumas, "O Conde de Monte Cristo", a série conta a história de Emily Thorne (interpretada pela adorável Emily VanCamp, de "Everwood" e "Brothers & Sisters"), uma garota misteriosa que chega aos Hamptons, em Nova York, em busca de vingança contra aqueles que destruíram sua família. Emily é, na verdade, Amanda Clarke, uma garota que morou ali na infância e que agora aluga a mesma casa na qual viu seu pai ser preso por um crime que não cometeu. Agora, podre de rica, a garota retorna para a cidade e começa a executar seu plano, derrubando um inimigo por vez. E, acredite, é sensacional!

E quando eu digo que não há episódio desperdiçado, estou falando sério. Logo no piloto da série, vemos Emily fazer sua cara de "cheguei e vou eliminar um por um" e humilhar publicamente a melhor amiga da matriarca da família Grayson. O elenco é inteiro canastrão. Eles fazem aquela cara de surpresa, terror, medo, malícia, esperteza e inclua quantas mais você quiser. As situações vão além do absurdo e você só não sai rindo por aí dizendo "que porcaria" porque tudo funciona maravilhosamente bem.


O roteiristas souberam amarrar a história direitinho. Cada personagem está ali por algum motivo e sempre acontece alguma coisa. Esqueça essa história de construção das personagens, envolvimento e evolução da história. Tudo é rápido e te pega desprevenido. Eu, por exemplo, comecei a assistir a série sem nenhum interesse e, de repente, me vi na frente do computador por umas 8 horas até chegar ao tão comentado final de temporada (que nem é tão sensacional assim, mas aí você já está envolvido até o pescoço).


Só sei que, de repente, a série nem é "tão-ruim-que-é-boa" e você acaba viciado e achando que é a melhor coisa da TV nos últimos anos. Tem a Emily sempre com aquela cara "você é apenas uma peça no meu tabuleiro e me vingarei, aguarde", tem um japonês que ensinou artes marciais e aparece para lembrá-la que não se pode ter emoções, ninguém naquela comunidade rica tem ocupação, o filho do casal rico só usa frase de efeito e nunca pergunta que assunto a Emily tem pra resolver toda hora (como disse um amigo meu, a menina sai às 4 da manhã, diz que foi comprar peixe e, ok, ele acredita), todo mundo entra na casa da Emily sem avisar, porta sempre está aberta e ela guarda um baú megaultrahipersecreto embaixo do assoalho da casa. Tem tudo isso, mas acompanhado de gente rica, bonita e ainda com vingança, não tem como não gostar. 

Se você quer assistir a uma série cabeça, com uma história para acrescentar conteúdo em sua alma, no seu âmago, em você enquanto ser humano, eu indico "Mad Men", "Sopranos", "Breaking Bad", "Six Feet Under" e por aí vai. Mas se você quer diversão, tensão até o fim, personagens legais e uma história de arregalar os olhos, saia logo daí e vá atrás de "Revenge". Como disse a jornalista Cláudia Croitor, pra que verossimilhança com uma história tão boa assim?

Melhor vício do ano.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Séries boas que tornaram-se péssimas

Sabe aquela série que você acompanhava há anos, jurava que era a melhor coisa da (sua) televisão e, de repente, ela vai tomando rumos estranhos e acaba sendo a história mais chata e ruim da TV? Ou quando a série vai indo bem e acontece um evento que muda tudo e aí os roteiristas perdem a mão, não conseguem desenvolver as mudanças e tudo acaba ficando horrível? Ou quando você ama uma série, fica anos sem ver e, quando revê, percebe que o seu gosto era pra lá de duvidoso? Pois bem, isso é mais comum do que parece e tem até um termo específico para explicar. 
Jumping the shark é uma frase criada por Jon Hein, um radialista famoso nos Estados Unidos, usada para descrever aquele momento da história de uma série de TV na qual a qualidade começa a decair e nunca mais consegue se recuperar. Aqui vão alguns exemplos da minha linda e querida história televisiva.

"Smallville" (2001) - Confesso. Nunca foi boa, mas por ela eu comecei a falar sobre temporadas, reprises, roteiristas e todo esse dicionário de série. Mas aí fui crescendo e, lá pela sétima temporada (foram dez!), comecei a sentir vergonha pelo texto, pelos atores, pela história e por todo aquele negócio de Super-Homem salvando o mundo. A série começou a cair na quinta temporada e foi recupear o fôlego na sétima, mas aí os próprios atores começaram a abandonar a história eu já tinha mostrado a criptonita. Tchau, Clark.


"Nip/Tuck" (2003) - Eu declarava a quem quisesse ouvir: a série mais corajosa e inteligente no ar. As três primeiras temporadas de "Nip/Tuck" são de aplaudir de pé em frente ao aparelho de televisão. O enredo era envolvente, a qualidade era excelente, os atores davam um show e os politicamente corretos do Parents Television Council se organizavam pra tirar a série do ar, devido ao seu conteúdo explícito. Depois, novamente, os roteiristas acharam que tudo podia ser feito e transformaram a clínica num circo dos horrores, dois médicos atrapalhados, uma turminha do barulho e as bizarrices aumentaram. Teve mulher com uma serra elétrica mutilando o próprio seio, outra mulher que teve o seio arrancado pelo cachorro enquanto ela e o animal transavam e por aí vai, outra que sofreu mutilação vaginal e por aí vai. Larguei.   

"The O.C" (2003) - Esquecendo que, assistindo hoje, eu já acho a série bem chatinha, vou falar apenas que tive bons momentos. Até tolerei a segunda temporada, mas a terceira ficou mal escrita e com histórias que não convenciam ninguém. Num golpe de misericódia, mataram a chata insuportável da Marissa e a quarta temporada ficou excelente, mas aí já era tarde. 



"House" (2004) - Eu sei que as pessoas quase me espancam quando eu falo mal de "House", mas podem bater. Cinco excelentes temporadas e uma das melhores séries da TV, mas deveria ter acabado ali. O complicado de "House" é que os roteiristas realmente se esforçaram para inovar e deixar a história com novos arcos e personagens não manequeístas, mas não deu certo. House apaixonado não colou. Tirar toda a equipe médica e substituir por desconhecidos que nós não tínhamos a menor relação foi quase um suícidio. A série acabou há algumas semanas e eu não fiz questão de assistir. Prefiro lembrar de Gregory House na sua era de ouro. 

"Lost" (2004) - Ela revolucionou tudo. Dezenas de séries a imitaram, o modo de se contar uma história virou referência e a audiência era monstruosa (mais de 20 milhões de americanos assistiram a estreia), mas algo aconteceu. Flashback e flashforward pra tudo quanto é lado, luzes misteriosas, 4 milhões de mistérios pra resolver que nunca eram respondidos, sai personagem, entra, vai, volta, mestrados, doutorados e filosofia sobre a série. Tudo isso começou a ficar tão ridículo que a maioria já havia largado a história e os que ficaram já estavam desconfiados que as repostas seriam fracas. No fim, parece que os roteiristas preencheram um quadro branco, enumeraram os mistérios e foram inventando tudo porque não dava mais tempo. E tinha uma luz milagrosa de Jesus no meio. 


"Supernatural" (2005) - Era a série que tinha tudo pra ser ruim, mas acabou sendo boa. A partir da segunda temporada, o roteiro realmente ficou criativo e as histórias eram inteligente. Projetada para apenas 4 temporadas, o criador original da série a abandonou quando os executivos da emissora CW resolveram renovar. Resultado: a série é mais do mesmo e continua no ar até hoje. 



"Brothers & Sisters" (2006) - Essa me doeu. Os Walkers eram a família mais deliciosa da TV. Eles te abraçavam e diziam que tudo ficaria bem, a Sally Field era a mãe mais legal de todas e as personagens eram o exemplo de interação entre atores. Aí baixou o Manoel Carlos e rolou câncer, acidentes, mais tragédias, perda de memória, saída dos personagens, introdução de histórias ridículas. A série teve 5 temporadas, mas apenas as três primeiras valem realmente a pena. Ela acabou ano passado ao som de Born this way, da Lady Gaga. Confuso.

"Heroes" (2006) - No ano de sua estreia, os especialistas disseram que ela era a nova genialidade da televisão. A nova "Lost". A inovação. Um modelo. Aí veio a segunda temporada e o negócio degringolou. Nada salvou. A história virou um samba. Cada episódio trazia um novo sentido que não fazia sentido algum. O japonês legal foi pro passado, pro futuro, morreu, ressucitou e não sei o que aconteceu porque eu larguei essa tristeza.



"True Blood" (2008) - Eu ainda não desisti por três motivos: a primeira temporada foi genial, a segunda inteligente e divertida e é criação de Alan Ball, a mente por trás da perfeita "Six Feet Under". Depois, lobisomens surgiram, curupiras loucas, Sookie chata, Eric chato, Bill chato, Jessica chata, todo mundo insuportavelmente chato. Teve fantasma de uma africana que queria os ossos do bebê morto, uma bruxa louca, uns efeitos ridículos e um vilão que era a cara do Ronaldo Ésper. 

"Glee" (2009) - Do mesmo criador de "Nip/Tuck", Glee sempre foi mais supervalorizada do que boa. Eu simplesmente não sei o que acontece, mas todo mundo que eu conheço largou a série sem motivo aparente. Eu, inclusive.




"Friends" (1994) - Eu sou xingado pela maioria quando digo que "Friends" não é tão boa quanto parece ser. Mas calma. Eu tenho os DVDs, amo as personagens e nunca me envolvi tanto com um programa. Nos anos em que acompanhei a série, ela realmente era a melhor comédia. Mas, hoje, depois de tanta genialidade nas séries de comédia ("30 Rock"; "Parks and Recreation"; "The Office"; "Arrested Development" etc), eu acabei percebendo que tudo era mecanizado, as piadas são fracas e o público é manipulado a rir em todas as pausas. Isso funcionava nos anos 90 e começo de 2000, mas hoje essa linguagem não cola mais. Me julguem. 

As séries sensacionais de hoje podem ser as péssimas de amanhã.