"Michael" (Michael, 2011) não é um filme fácil. Classificada como drama, a obra também poderia ser de horror, tamanha a monstruosidade mostrada em seus 96 minutos. Dirigido por Markus Schleinzer, o filme austríaco conta a história de Michael, 35 anos, um corretor de seguros que leva uma vida aparentemente normal. Recentemente promovido, ele comemora junto aos colegas de trabalho. Em sua pequena casa no subúrbio, porém, guarda um segredo: mantém prisioneiro em seu porão o menino Wolfgang, de 10 anos, e o submete a uma rotina de abusos sexuais. Convivendo, os dois partilham de momentos de aparente naturalidade, seja assistindo à televisão ou dando pequenos passeios eventuais, que encobrem a verdadeira relação entre o molestador e a vítima.
O incômodo ao assistir o filme vem da normalidade. Michael trabalha, ouve música, paga contas, leva o lixo, recolhe cartas, atende telefone, tira férias. Não há nenhuma grande cena emblemática. Tudo é sóbrio, limpo, seco. Schleinzer deixa sempre a impressão de que algo vai acontecer e essa espera acaba tornando-se uma experiência dolorosa, porém, necessária. O diretor nos leva a uma mente doente, repulsiva, louca, mas que não mostra indícios de que aquela pessoa possa ser capaz de fazer tantas atrocidades e essa revelação acaba sendo assustadora quando pensamos que a situação, de fato, acontece diariamente sem que tenhamos a mínima ideia. Não há preocupação em escancarar as ações do pedófilo. Em nenhum momento vemos cenas de sexo explícito e, por isso mesmo, a angustia toma conta do começo ao fim. Aqui, o não saber é o que causa nojo. Por mais incômodo que seja, é preciso perceber que criminosos não aparecem como demônios com rosto agressivo.
O densenrolar da história é mostrado lentamente. Nunca sabemos exatamente o que acontece ou como acontece. Schleinzer usa o silêncio para perturbar. O grito do garoto em determinada cena é usado para que nós, espectadores passivos, possamos respirar um pouco, mas não muito. O diretor sufoca e faz isso usando a calma do dia a dia. A criança, assim como nós, não entende os reais motivos, apenas não gosta do que acontece e sente falta dos pais ao mesmo tempo em que constrói uma relação com o abusador. Mesmo quando há uma pequena esperança de que aquilo tudo vai acabar bem, a sensação de mal estar não some, assim como as marcas causadas naquele menino também não sumirão. Quando estamos prestes a nos livrar desta experiência amarga, ela acaba sem que possamos ficar indiferentes ao que nos foi mostrado. Não ignorar é o que se espera.
Markus Schleinzer entrega um filme duro, sem espaço para alívio e que não precisa de uma justificativa para existir. Algumas pessoas podem achar desnecessário, mas é justamente a cegueira opcional que mantém tantas pessoas iguais a Michael espalhadas por aí.





