A trama baseia-se na história real de um homem que, em 1828, em Nuremberg, na Alemanha, é encontrado em pé no meio de uma praça segurando uma carta e levando alguns livros de orações e um punhado de ouro. O homem é Kaspar Hauser, criado dentro de um cativeiro por 20 anos, amarrado por uma corrente ao chão, sendo alimentado todo dia e vivendo com um cavalo de brinquedo. Sem saber falar ou andar, Kaspar aprende o básico para ser deixado na cidade, onde é acolhido por uma família, enquanto aprende a falar e a exercer algumas funções para pagar o cuidado que recebe dos cidadãos.
Embora a história pareça melodramática, não há cenas sentimentais escancaradas. Herzog filma com frieza e não parece preocupado em fazer o público simpatizar com qualquer personagem. Kaspar se afasta das regras e aprende a conviver com outras pessoas, mas apenas para se dar conta que não tem o menor interesse nelas. Não é à toa que o título alemão seja "Cada um por si e Deus contra todos", frase que Herzog retirou do filme brasileiro "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.
Para viver o nada
comum Kaspar Hauser, o diretor escolheu um ator também incomum: Bruno S., filho
de uma prostituta, ficou internado em um hospício também por 20 anos. Em certos momentos, o desconforto de alguns
atores quando contracenam com ele é visível. Às vezes olha diretamente para a
câmera, anda sem rumo, sai de cena, parece genuinamente perdido. Sua
reação quando segura pela primeira vez um bebê e entende o que é mãe, ou quando
percebe que o fogo queima, faz de Bruno o ator perfeito para o papel, sendo
difícil imaginar qualquer outro em seu lugar.
O filme se permite criar pequenos momentos agradáveis ao público, mas logo lembramos que
trata-se de uma história sobre a adaptação de Kaspar à sociedade. O longa é permeado
por diversas cenas brilhantes, como a do professor de matemática que tenta fazer com que o o homem entenda o que é lógica; Kaspar procura entender por que as mulheres só
ficam sentadas, limpando ou cozinhando; religiosos o obrigam a ter fé em
Deus, no que Kaspar responde com sabedoria: "Primeiro, preciso aprender a
ler e escrever direito. Depois, eu penso em aprender o resto". Kaspar, sempre inquieto e impaciente, questiona-se a todo momento: Por que as maçãs amadurecem? Com podem dizer que
Deus criou tudo a partir do nada? Sua frustração é palpável quando o respondem
sem pestanejar: "Você deve acreditar no mistério da fé, sem procurar
entender". Respostas muito parecidas são proferidas até hoje por certas instituições, na tentativa quase insana de doutrinar pessoas a todo custo.
Completamente
autoral, Herzog faz um trabalho de direção magnífico, desde os enquadramentos
dos momentos oníricos de Kaspar, a fotografia melancólica, as atuações
sóbrias, frias e convincentes.
Kaspar Hauser morreu jovem. Em seu túmulo, na Alemanha, está escrito: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido."
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