domingo, 5 de maio de 2013

O enigma de Kaspar Hauser e a sociedade atual



O segredo para viver em sociedade é adaptar-se aos seus costumes, enraizados desde o momento em que uma pessoa nasce. Para muitos, não há outra forma a não ser aceitar esse condicionamento. Quem não concorda, sofre as consequências de uma imposição cruel. Resumidamente, "O Enigma de Kaspar Hauser" (Jeder für sich und Gott gegen alle, Alemanha, 1974) dirigido pelo alemão Werner Herzog (nome influente no Novo Cinema Alemão), é o reflexo de uma sociedade que aponta o dedo e acusa sem medo.

A trama baseia-se na história real de um homem que, em 1828, em Nuremberg, na Alemanha, é encontrado em pé no meio de uma praça segurando uma carta e levando alguns livros de orações e um punhado de ouro. O homem é Kaspar Hauser, criado dentro de um cativeiro por 20 anos, amarrado por uma corrente ao chão, sendo alimentado todo dia e vivendo com um cavalo de brinquedo. Sem saber falar ou andar, Kaspar aprende o básico para ser deixado na cidade, onde é acolhido por uma família, enquanto aprende a falar e a exercer algumas funções para pagar o cuidado que recebe dos cidadãos. 

Embora a história pareça melodramática, não há cenas sentimentais escancaradas. Herzog filma com frieza e não parece preocupado em fazer o público simpatizar com qualquer personagem. Kaspar se afasta das regras e aprende a conviver com outras pessoas, mas apenas para se dar conta que não tem o menor interesse nelas. Não é à toa que o título alemão seja "Cada um por si e Deus contra todos", frase que Herzog retirou do filme brasileiro "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.



Para viver o nada comum Kaspar Hauser, o diretor escolheu um ator também incomum: Bruno S., filho de uma prostituta, ficou internado em um hospício também por 20 anos. Em certos momentos, o desconforto de alguns atores quando contracenam com ele é visível. Às vezes olha diretamente para a câmera, anda sem rumo, sai de cena, parece genuinamente perdido. Sua reação quando segura pela primeira vez um bebê e entende o que é mãe, ou quando percebe que o fogo queima, faz de Bruno o ator perfeito para o papel, sendo difícil imaginar qualquer outro em seu lugar. 


O filme se permite criar pequenos momentos agradáveis ao público, mas logo lembramos que trata-se de uma história sobre a adaptação de Kaspar à sociedade. O longa é permeado por diversas cenas brilhantes, como a do professor de matemática que tenta fazer com que o o homem entenda o que é lógica; Kaspar procura entender por que as mulheres só ficam sentadas, limpando ou cozinhando; religiosos o obrigam a ter fé em Deus, no que Kaspar responde com sabedoria: "Primeiro, preciso aprender a ler e escrever direito. Depois, eu penso em aprender o resto". Kaspar, sempre inquieto e impaciente, questiona-se a todo momento: Por que as maçãs amadurecem? Com podem dizer que Deus criou tudo a partir do nada? Sua frustração é palpável quando o respondem sem pestanejar: "Você deve acreditar no mistério da fé, sem procurar entender". Respostas muito parecidas são proferidas até hoje por certas instituições, na tentativa quase insana de doutrinar pessoas a todo custo.


Completamente autoral, Herzog faz um trabalho de direção magnífico, desde os enquadramentos dos momentos oníricos de Kaspar, a fotografia melancólica, as atuações sóbrias, frias e convincentes. 



No final, o gosto na boca do público torna-se agridoce. Ao mesmo tempo em que é divertida a percepção de Kaspar sobre algumas sensações, objetos e costumes, somos obrigados a ver o retrato de uma sociedade que julga e penaliza. Vemos o certo e o errado ganhando destaque pela visão de pessoas com valores, princípios e ética já bem delimitados. Kasper sofre por ser diferente e a sociedade o julga por medo do diferente. E se pensarmos que os acontecimentos desta história se passam em 1828, a experiência torna-se ainda mais perturbadora quando percebemos que, em 2013, pouca coisa mudou.


Kaspar Hauser morreu jovem. Em seu túmulo, na Alemanha, está escrito: "Aqui jaz um desconhecido assassinado por um desconhecido."