segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Maratona Oscar: "Os Descendentes"


Se filmes para a família muitas vezes se mostram um recheado de clichês e cenas que subestimam a capacidade do público, "Os Descendentes" (The Descendants) foge à regra. Dirigido por Alexander Payne ("Sideways") e tendo como protagonista George Clooney, o longa aposta em mostrar a vida sem muitos enfeites, exatamente como ela é.

O filme conta a história de Matt King (Clooney), um dos descendentes do título. Ele e seus primos herdaram de seus ancestrais centenas de hectares de terras que um dia pertenceram à realeza havaiana. Mas enquanto a maioria deles não trabalha, vivendo apenas desta renda, Matt é um advogado e também o responsável legal por gerir tudo o que sobrou do espólio. Às vésperas de fechar um acordo imobiliário de meio bilhão de dólares, sua esposa sofre um acidente de barco e entra em coma. A situação leva Matt a se reaproximar de suas filhas e repensar seu passado e futuro.


Um dos acertos (e são muitos) do filme é colocar o galã George Clooney como um pai de família sem nenhum glamur. De chinelos e camisa havaiana, Matt corre de um jeito engraçado, tenta lidar com as filhas e cuida da situação da maneira mais sutil possível, tudo isso graças à bela direção de Alexander Payne. Outro acerto é colocar o Havaí não como o paraíso visto em tantas produções, mas como um lugar comum em que acontecem coisas comuns. Aliás, o grande mérito da obra é contar uma história ora engraçada, ora emocionante sem apelar para dramas pesados ou sentimentalismos baratos que forçam o público a engolir cenas arranca lágrimas. Como na vida, vemos situações em que não sabemos se devemos chorar ou rir e não é surpresa que, por mais inverossímel que pareça algumas atitudes das personagens, a identificação é imediata.


As atuações - assim como a história - são leves e conduzidas sem sair do tom. George Clooney prova mais uma vez que não (há muito tempo) só um rosto bonito com uma atuação regular. Conseguimos sentir a confusão, frustração, raiva e tristeza nos olhos do ator, tudo isso com um gosto - ás vezes amargo, ás vezes doce - de que já nos sentimos assim em algum momento da vida. Além de Clooney, temos a grata surpresa de Shailene Woodley, com seus 17 anos e uma atuação sob medida, fazendo uma adolescente rebelde sem ser irritante e entendemos perfeitamente o motivo da rebeldia.

Com pequenas cenas, o longa tem um nível de emotividade enorme, apenas pelo fato de dialogar com situações do cotidiano e refletir sobre. "Os Descendentes" é uma prova de que, mesmo com um roteiro simples, a execução pode transformar um pequeno filme sobre família em uma das histórias mais bonitas do cinema.

Oscar - Indicações

Melhor Filme
Melhor Direção
Melhor Ator
Melhor Roteiro Adaptado

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Por que você ainda não viu "Homeland"?

Se isso não é uma série boa, eu não entendo mais nada de TV. Estrelada pela excelente sensacional, maravilhosa Claire Danes, a história gira em torno de um soldado americano que é encontrado vivo no Afeganistão depois de oito anos desaparecido e volta como heroi. Uma agente da CIA recebe a informação de que o maior terrorista do mundo conseguiu converter um soldado dos EUA para o seu lado e quando o marine é achado num buraco e volta aos EUA, não tem dúvidas de que ele é o terrorista. Só que ninguém acredita e ninguém desconfia que o homem pode estar tramando contra seu próprio país. É nesse momento que Carrie começa a agir sozinha. E vale tudo. Desde implantar câmeras na casa do soldado (ilegalmente, claro) até...bom, aí você precisa assistir.


Baseada numa série israelense e lembrando "24 Horas", o seriado consegue fazer o melhor para um programa de TV: deixar o público desesperado pelo segundo episódio. Nenhuma cena é desperdiçada, tudo é amarrado e vai fazer sentido em algum momento da história. A vida pessoal das personagens influencia muito no roteiro e o que poderia ser muito chato e dispensável, torna-se tão interessante quanto a história do terrorismo. As atuações estão na medida certa. Desde o presidente da CIA - que nos irrita profundamente e...bem, assista - até a família do soldado que consegue cativar. Aliás, a brasileira Morena Baccarin está ótima no papel de esposa do soldado. Para quem não lembra, ela era a alienígena daquela série horrorosa  de "V". 

Mas a dona de tudo é Caire Danes. Dificilmente alguém tira o prêmio dela de Melhor Atriz em Série Dramática. Carrie é uma agente bipolar que tem algumas crises ao longo da temporada e a atuação da atriz é tão boa que nós não sabemos se as suspeitas dela são infundadas e baseadas em sua doença ou ela está certa e o soldado está mesmo traindo a pátria. E aí, lá pelo meio da temporada, você não entende mais nada. E você descobre que...bom, aí você precisa assistir.

Não é uma série de ação. Você não vê muitos tiros e explosões. O que você acompanha são joguinhos psicológicos. Em certo momento, você está tão perdido quanto Carrie. Em outros, você sabe tudo o que está acontecendo, mas ela não. E você começa a se irritar com as atitudes da agente. E parece que nada faz sentido, até que tudo se encaixa e seu queixo cai.


É aquela série que vale a pena assistir. É aquela história corajosa que não se sutenta em clichês. Quando pensa que é mais uma baboseira sobre o orgulho de ser americano e a guerra ao terror, você se pega torcendo para os dois lados e chega a entender o motivo da Al-Qaeda (juro).  É aquela série que parece ter sido feita para durar uma temporada, mas aí os roteiristas fazem um gancho lindo pra próxima. 

A única coisa que eu quero saber é: por que você ainda não viu "Homeland"?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os indicados ao Oscar 2012

Nesta terça-feira, 24, foi divulgada a lista dos indicados ao Oscar 2012, que acontece dia 26 de fevereiro, em Los Angeles, com apresentação do comediante Billy Cyrstal. O anuncio foi feito no Samuel Goldwyn Theater, em Beverly Hills, em cerimônia apresentada pelo presidente da Academia, Tom Sherak, e pela atriz Jennifer Lawrence, indicada na categoria de Melhor Atriz na última edição por "Inverno da Alma". Estre blog fará maratona com os 10 filmes indicados e a humilde opinião de quem vos escreve. 

Confira abaixo a lista completa. "A Invenção de Hugo Cabret" obteve maior número de indicações. São 11 no total, incluindo Melhor Filme. Logo atrás, com 10 indicações, vem a comédia "O Artista", filme mudo feito em preto e branco.

Filme
"A Árvore da Vida"
""Os Descendentes"
"Histórias Cruzadas"
"A Invenção de Hugo Cabret"
"O Homem Que Mudou o Jogo"
"Cavalo de Guerra"
"O Artista"
"Meia-Noite em Paris"
"Tão Forte e Tão Perto"

Direção
Woody Allen - "Meia-Noite em Paris"
Michel Hazanavicius - "O Artista"
Alexander Payne - "Os Descendentes"
Martin Scorsese - "A Invenção de Hugo Cabret"
Terrende Malick - "A Árvore da Vida"

Ator
Demián Bichir - "A Better Life"
George Clooney - "Os Descendentes"
Jean Dujardin - "O Artista"
Gary Oldman - "O Espião Que Sabia Demais"
Brad Pitt - "O Homem Que Mudou o Jogo"

Atriz
Glenn Close - "Albert Nobbs"
Viola Davis - "Histórias Cruzadas"
Rooney Mara - "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
Meryl Streep - "A Dama de Ferro"
Michelle Williams - "Sete Dias com Marilyn"

Ator Coadjuvante
Christopher Plummer - "Toda Forma de Amor"
Jonah Hill - "O Homem Que Mudou o Jogo"
Kenneth Branagh - "Sete Dias com Marilyn"
Nick Nolte - "Guerreiro"
Max von Sydow - "Tão Forte e Tão Perto"

Atriz Coadjuvante
Berenice Bejo - "The Artist"
Jessica Chastain - "Histórias Cruzadas"
Melissa McCarthy - "Missão Madrinha de Casamento"
Janet McTeer - "Albert Nobbs"
Octavia Spencer - "Histórias Cruzadas"

Roteiro original
"O Artista" - Michel Hazanavicius
"Missão Madrinha de Casamento" - Jriste Wiig, Annie Mumolo
"Margin Call - O Dia Antes do Fim" - J.C. Chandor
"Meia-Noite em Paris" - Woody Allen
"A Separação" - Ashgar Farhadi

Roteiro adaptado
"Os Descendentes" - Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
"A Invenção de Hugo Cabret" - John Logan
"Tudo pelo Poder" - George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon
"O Homem que Mudou o Jogo" - Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin
"O Espião que Sabia Demais" - Bridget O'Connor, Peter Straughan

Animação
"Um Gato em Paris"
"Chico & Rita"
"Kung Fu Panda 2"
"Gato de Botas"
"Rango"

Canção Original
"Man or Muppet" - "The Muppets" - Música e Letra de Bret McKenzie
"Real in Rio" - "Rio" - Música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown e letra de Siedah Garrett

Trilha sonora
"As Aventuras de Tintim" - John Williams
"O Artista" - Ludovic Bource
"A Invenção de Hugo Cabret" - Howard Shore
"O Espião que Sabia Demais" - Alberto Iglesias
"Cavalo de Guerra" John Williams

Filme estrangeiro
Bélgica - "Bullhead" - Michael R. Roskam
Canadá - "Monsieur Lazhar" - Philippe Falardeau
Irã - "A Separação" - Asghar Farhadi
Israel - "Footnote" - Joseph Cedar
Polônia - "In Darkness" - Agnieszka Holland

Efeitos visuais
"Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 "
"A Invenção de Hugo Cabret"
"Gigantes de Aço"
"Planeta dos Macacos: A Origem"
"Transformers: O Lado Oculto da Lua"

Edição de som
"Drive"
"Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
"A Invenção de Hugo Cabret"
"Transformers: O Lado Oculto da Lua"
"Cavalo de Guerra"

Mixagem de som
"Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
"A Invenção de Hugo Cabret"
"O Homem Que Mudou o Jogo"
"Transformers: O Lado Oculto da Lua"
"Cavalo de Guerra"

Direção de arte
"O Artista" - Laurence Bennett, Robert Gould
"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2" - Stuart Craig, Stephenie McMillan
"A Invenção de Hugo Cabret" - Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo
"Meia-Noite em Paris" - Anne Seibel, Hélène Dubreuil
"Cavalo de Guerra" - Rick Carter, Lee Sandales

Fotografia
"O Artista"
"Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
"A Invenção de Hugo Cabret"
"A Árvore da Vida"
"Cavalo de Guerra"

Figurino
"Anonymous"
"O Artist"
"A Invenção de Hugo Cabret"
"Jane Eyre"
"W.E."

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mídias sociais, telefone celular, governo americano e um enterrado vivo

Os críticos especializados são unânimes. "Enterrado Vivo" ("Buried") é claustrofóbico, tem um roteiro original e bem escrito, a atuação de Ryan Reynolds é boa e uma trilha sonora impecável. Sim, o filme é tudo isso, mas poderia ser só uma grande denúncia à guerra do Iraque promovida pelos EUA, o poder das mídias sociais e as companhias de celular (ou as pessoas que não atendem o telefone). Tudo isso com um único ator dentro de um caixão.

Filme de estréia do diretor espanhol Rodrigo Cortés, "Enterrado Vivo" conta a história de Paul Conroy (Ryan Reynolds), um americano motorista de caminhão no Iraque que acorda, sem saber como, enterrado vivo dentro de um caixão de madeira. Sem saber o que aconteceu e o porquê de estar ali, ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Começa então uma tensa corrida contra o tempo e a falta de ar. E a pressão aumenta ainda mais quando os sequestradores exigem um resgate milionário para libertá-lo e um vídeo com suas imagens vão parar no YouTube. 

Vale de tudo. Em 90 minutos, vemos a via crucis de Paul para salvar sua vida. Não há muito o que falar sobre o enredo porque isso prejudica a trama para quem não viu, mas o por quê, por quem e para quê serão respondidas lenta e desesperadoramente até o final do filme. Nisso, nós vemos o desespero de Paul ao tentar ligar para sua casa e cair apenas na caixa postal. "Pra onde foi todo mundo?" Vemos Paul ligar para o 911 e a burocracia da atendente simplesmente torna inviável o pedido de ajuda e chega até ser engraçado alguns momentos em que ele precisa lembrar o número do seu seguro social. Preso num caixão no meio do nada e ainda se irritando com empresas de telemarketing.

As negociações com o sequestrador beiram o absurdo, mas absurdo maior é quando a personagem tenta obter ajuda do governo dos EUA, que parece fazer de tudo, menos tentar encontrá-lo. O roteiro de Chris Sparling constrói diálogos relevantes e reflexivos sobre o sistema americano e o texto final é uma grande e inteligente ironia.
 
Mas, falando da estrutura narrativa do filme, a angústia reina absoluta. Lembrando obras como "Mar Aberto" e "127 Horas", o diretor consegue facilmente levar o espectador pra dentro do caixão com Paul. Cortés, que usou sete caixões com aberturas diferentes, e muitas vezes apenas a luz emitida pelo celular ou pelo isqueiro, dá ao filme uma movimentação impressionante para um projeto que se passa em um espaço menor de 1 metro cúbico. O jogo de câmera ousa em todos as cenas. Ryan Reynolds segura bem seu papel, apesar de não demonstrar tanto desespero assim. A trilha sonora é um dos - senão o maior - efeitos positivos para tanta agonia.


Contrariando a maioria dos críticos de cinema que chegaram a comparar Rodrigo Cortés à Alfred Hitchcock, não achei o filme tão excepcional assim. Acima da média, sem dúvida, mas não tão revolucionário como parece. É claro que ele entrega o que promete e os méritos descritos acima são sensacionais, porém, o mais interessante é perceber que, até mesmo na situação mais extrema, estamos reféns não só de terroristas ou lunáticos, mas de toda uma burocracia que usa a desculpa de "protocolos" apenas para tirarem os seus da reta. Sua ligação é muito importante para nós. Aguarde na linha enquanto morre aos poucos. E não precisamos estar num caixão abaixo do chão pra isso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Vera Drake e a pureza de um crime


Apesar de ser um apaixonado declarado por cinema, confesso que não assisti todos os filmes indicados ao Oscar nem os tão mega elogiados. Porém, nunca é tarde pra mudar e "O Segredo de Vera Drake"(2004) é um deles.

Londres, 1950. Vera Drake (Imelda Staunton) mora com seu marido Stan (Philip Davis) e seus filhos já crescidos, Sid (Daniel Mays) e Ethel (Alex Kelly). Eles não são ricos, mas formam uma família feliz e unida. Vera trabalha como faxineira e Stan é mecânico na oficina de seu irmão. Porém, Vera mantém uma atividade paralela que esconde do resto da família: sem aceitar pagamento, ajuda jovens mulheres a abortarem. Quando uma dessas garotas precisa seguir para o hospital, a polícia começa uma investigação que faz o mundo de Vera desabar.

Dirigido com extremo cuidado por Mike Leigh, "Vera Drake" não levanta bandeira para a questão da legalização do aborto, crime ou castigo. O filme entrega ao público a história crua, sem reviravoltas, construindo lentamente todas as situações. E, se você não gosta de filmes tristes, passe longe deste. Não apenas arranca lágrimas como deixa o público incomodado, o que garante boas conversas após a história.

Imelda Staunton - indicada ao Oscar por esta atuação - merece todos os elogios que recebeu. Sua Vera consegue emocionar fortemente e sua inocência ao se dar conta que sua atividade era considerada um crime monstruoso é formidável. É claro que muito do que vemos em cena é trunfo da direção de Leigh, já que apenas a atriz e as meninas que recebiam ajuda é que sabiam que a história tratava de aborto. O restante do elenco gravou sem ter a mínima ideia do tema central do filme, assim como não foi escrito roteiro.



Por falar na direção, Leigh continua usando da técnica do improviso. A cena em que a polícia chega na casa de Vera para interrogá-la foi feita sem aviso. Nem a própria atriz sabia que seria detida e o resultado é a reação que vemos em cena, capaz de causar arrepios tamanha a veracidade de Imelda.



"Vera Drake" vai se revelando aos poucos. Enquanto vemos a personagem cuidar da casa, da mãe e do vizinho doente, assistimos a senhora visitar a casa de algumas meninas e, cuidadosamente, realizar o aborto. Munida de uma seringa, desinfetante, sabonete e água quente, Vera acredita estar ajudando as garotas. E o fato dela não cobrar nada pelo serviço é um detalhe muito importante pra não julgarmos as ações da personagem. Afinal, de meras testemunhas oculares, de uma hora pra outra, viramos cúmplices. E agora?

A grande questão do filme é que começamos a julgar Vera ao mesmo tempo que assistimos o horror de cada passo dado pela justiça. Desde sua chegada ao tribunal até o final, acompanhamos todos o processo com um dedo apontado na nossa cara. A hipocrisia da sociedade chega a nos incomodar. Nós também somos assim? Não há sentimentalismo, não há gente bonita, não há uma cena que vá acalmar os ânimos e apareça uma luz dando a possibilidade de tudo acabar bem. O público já sabe o que esperar no final e, mesmo assim, assiste tudo com um gosto amargo na boca. Assim como "Dançando no Escuro", de Lars Von Trier, testemunhamos um crime sem saber formar opinião se ela é culpada ou inocente, o que torna a obra perturbadora.

Com um orçamento baixíssimo, o que vemos em cena é - na maioria das vezes - improvisação. Sem dinheiro para pagar direitos autorais, a trilha sonora é basicamente feita pelas personagens, que cantarolam o tempo todo. Todo esses "problemas" trazem um realismo necessário ao filme e não é de se admirar que tenha levado tantos prêmios. Aliás, o Oscar 2005 cometeu uma grande injustiça ao não dar o prêmio de Melhor Atriz à Imelda Staunton (quem ganhou naquele ano foi Hillary Swank, por "Menina de Ouro"). A atuação dela mexe com qualquer pessoa.

 Moralidade, legalidade, relação entre classes sociais e importância da família são alguns casos que podem ser discutidos ao longo do filme, porém, Leigh não entrega tudo mastigado ao público. Sem jamais subestimar a inteligência, o diretor cria uma gama de sentimentos que podem ir do repúdio até ao amor por aquela velha senhora.


É complicado escrever sobre, mas o que vemos ali é uma mulher que faz um crime puro. Sem nenhuma maldade, Vera acredita que está ajudando aquelas garotas, mesmo sabendo que é um crime. "O Segredo de Vera Drake" mostra o cuidado com pequenos detalhes como poucos e é honesto como poucos. Não vá assistir pensando em julgá-la. Talvez você se surpreenda com sua própria reação.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Os vencedores do Globo de Ouro


No último domingo, 15, foi realizada a 69º premiação do Globo de Ouro, que premia cinema e TV e é considerado uma prévia do Oscar. Os votantes do prêmio são os jornalistas estrangeiros - entre eles, duas brasileiras - e, apesar de não ser tão respeitado, apresenta ao público as novidades e alguns dos melhores filmes do começo do ano. Comandado pelo comediante inglês Rick Gervais (que pegou mais leve nas piadas esse ano), a associação premiou "Os Descendentes", de Alexandre Payne, por Melhor Filme e Melhor Ator, por George Clooney. Ainda, o favoriro "O Artista" - filme mudo feito em preto e branco - levou Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Ator (Jean Dujardin) e Melhor Trilha Sonora.  


A partir da esquerda: Jim Taylor, Jim Burke e 
Alexander Payne, produtores de ‘Os descendentes’


 "O Artista" - filme mudo e em preto e branco - levou o prêmio de Melhor Filme Comédia ou Musical

Michelle Willians levou o prêmio de Melhor Atriz de Comédia ou Musical por sua atuação como Marilyn Monroe em "Sete Dias com Marilyn".

 Michelle Willians

Já a multi premiada Meryl Streep ganhou o Globo de Melhor Atriz ao interpretar Margaret Thatcher em "A Dama de Ferro". 



Christopher Plummer, 82, levou Melhor Ator Coadjuvante por "Toda Forma de Amor", no qual interpreta um senhor que assume sua homossexualidade para a família após a morte da esposa. A melhor direção ficou para Martin Scorsese e seu elogiadíssimo "A Invenção de Hugo Cabret". Como o Brasil é atrasado e não estreou todos os filmes indicados Brasil ainda não estreou todos os filmes indicados, não é possível analisá-los. Segue abaixo a lista completa nas categorias cinema:


Melhor filme - drama
“Os descendentes”
“Histórias cruzadas”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Tudo pelo poder”
“O homem que mudou o jogo”
“Cavalo de Guerra”

Melhor filme - musical e comédia
"O artista"
"Missão madrinha de casamento"
"50%"
"Meia-Noite em Paris"
"Sete Dias com Marilyn"


Melhor atriz - drama
Glenn Close, "Albert Nobbs"
Viola Davis, "Histórias cruzadas"
Rooney Mara, "Millennium: os homens que não amavam as mulheres"
Meryl Streep, "A dama de ferro"
Tilda Swinton, "Precisamos falar sobre o Kevin"

Melhor atriz - musical e comédia
Jodie Foster: "Carnage" (2011)
Charlize Theron, "Jovens adultos" (2011)
Kristen Wiig, "Missão madrinha de casamento" (2011)
Michelle Williams, "Sete Dias com Marilyn" (2011)
Kate Winslet, "Carnage" (2011)

Melhor ator - drama
George Clooney, "Os descendentes"
Leonardo DiCaprio, "J. Edgar"
Michael Fassbender, "Shame"
Ryan Gosling, "Tudo pelo poder"
Brad Pitt, "O homem que mudou o jogo"

Melhor ator - musical e comédia
Jean Dujardin, “O artista”
Brendan Gleeson, “O guarda”
Joseph Gordon-Levitt, “50%”
Ryan Gosling, “Amor a toda prova”
Owen Wilson, “Meia-Noite em Paris”

Melhor atriz coadjuvante - drama
Bérénice Bejo, "O artista" (2011)
Jessica Chastain, "Histórias cruzadas" (2011)
Janet McTeer, "Albert Nobbs" (2011)
Octavia Spencer, "Histórias cruzadas" (2011)
Shailene Woodley, "Os descendentes" (2011)

Melhor ator coadjuvante - drama
Kenneth Branagh, "Sete Dias com Marilyn" (2011)
Albert Brooks, "Drive" (2011)
Jonah Hill, "O homem que mudou o jogo" (2011)
Viggo Mortensen, "Um método perigoso" (2011)
Christopher Plummer, "Toda forma de amor" (2010)

Melhor roteiro
"The artist" (2011), Michel Hazanavicius
"Os descendentes" (2011): Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
"Tudo pelo poder" (2011): George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon
"Meia-noite em Paris" (2011), Woody Allen
"O homem que mudou o jogo" (2011): Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin

Melhor animação
"As aventuras de TinTin" (2011)
"Operação presente" (2011)
"Carros 2" (2011)
"Gato de botas" (2011)
"Rango" (2011)

Melhor trilha sonora
"The artist (2011)": Ludovic Bource
"Millennium - os homens que não amavam as mulheres" (2011): Trent Reznor, Atticus Ross
"A invenção de Hugo Cabret" (2011), Howard Shore
"War horse" (2011), John Williams
"W.E." (2011), Abel Korzeniowski

Melhor canção original
"Albert Nobbs" (2011), "Lay your head down"
"Gnomeu e Julieta" (2011): "Hello hello", de Elton John e Bernie Taupin
"Histórias cruzadas" (2011):"The living proof", de Mary J. Blige, T. Newman e H. Mason Jr.
"Redenção" (2011): "The keeper"
"W.E." (2011): "Masterpiece", de Madonna

Melhor filme em língua estrangeira
"Jin líng shí san chai" (2011)
"In the land of blood and honey" (2011)
"O garoto de bicicleta" (2011)
"A separação" - Irã (2011)
"A pele que habito" (2011)

Melhor diretor:
Woody Allen, "Meia-Noite em Paris"
George Clooney, "Tudo pelo poder
Michel Hazanavicius, "O artista"
Martin Scorsese, "A invenção de Hugo Cabret"
 Alexander Payner, "Os descendentes"




Já nas categorias televisão, a grande vencedora foi "Homeland", que levou Melhor Série Drama e Melhor Atriz (Claire Danes). "Homeland" conta a história de uma agente bipolar que persegue um soldado americano que pode ter mudado de lado e estar trabalhando para os terroristas. "Modern Family" continua sendo a comédia favorita dos americanos, levando o prêmio de Melhor Comédia. É o segundo Globo de Ouro consecutivo da série. A consagração começa a mostrar que "Glee" - vencedora do ano passado - já perdeu sua força. Kelsey Gramer volta à  TV em grande estilo e levou pra casa o prêmio de Melhor Ator em Série Dramática por sua atuação em "Boss". A série conta a história de Tom Kane, prefeito da cidade de Chicago secretamente diagnosticado com um tumor cerebral sem cura. Já a sensacional Jessica Lange levou - merecidamente - o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por "American Horror Story". Peter Dinklage ganhou Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação como o anão de "Game of Thrones". A surpresa da noite ficou na categoria de Melhor Ator Coadjuvante em Comédia ou Musical, premiando Matt LeBlanc, que interpreta ele mesmo na série "Episodes". Matt ficou conhecido ao interpretar por 10 anos o Joey, de "Friends".

 Claire Danes

Outra surpresa foi na categoria de Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Laura Dern levou o Globo por sua atuação em "Enlightened". Na história, ela interpreta uma mulher que, após uma crise nervosa, entra em contato com sua espiritualidade. Sua nova forma de ver a vida a leva a tentar convencer as pessoas a passarem pelo mesmo processo de mudança. Ao longo do caminho ela enfrenta diversas resistências e críticas. O interessante é que a série só foi renovada graças à indicação ao Globo de Ouro e o apoio da crítica especializada.

Já na categoria Melhor Minissérie ou Filme feito para a TV,  a minissérie "Downton Abbey" levou o prêmio. Já a favorira Kate Winslet ganhou Melhor Atriz por Minissérie ou Filme feito para a TV, por sua atuação em "Mildred Pierce".

                                        Kate Winslet ganhou Melhor Atriz por Minissérie por "Mildred Pierce" 

É de se notar que a única premiação da noite para a televisão aberta foi para "Modern Family". O restante são produções de canais fechados, o que mostra que as emissoras precisam abrir os olhos e reaver a qualidade de seus programas. Confira abaixo a lista completa:

 O elenco de "Modern Family"

Melhor série de TV - drama
"American Horror Story"
"Boardwalk Empire"
"Boss"
"Game of Thrones"
"Homeland"

Melhor atriz em série de TV - drama
Claire Danes, "Homeland"
Mireille Enos, "The Killing"
Julianna Margulies, "The Good Wife"
Madeleine Stowe, "Revenge"
Callie Thorne, "Necessary Roughness"

Melhor ator em série de TV - drama
Steve Buscemi, "Boardwalk Empire"
Bryan Cranston, "Breaking Bad"
Kelsey Grammer, "Boss"
Jeremy Irons, "The Borgias"
Damian Lewis, "Homeland"

Melhor atriz - musical ou comédia
Laura Dern, "Enlightenment"
Zooey Deschanel, "New Girl"
Tina Fey, "30 Rock"
Laura Linney, "The Big C"
Amy Poehler, "Parks and Recreation"


Melhor ator - musical ou comédia
Alec Baldwin, "30 Rock"
David Duchovny, "Californication"
Johnny Galecki, "The Big Bang Theory"
Thomas Jane, "Hung"
Matt LeBlanc, "Episodes"

Melhor minissérie ou filme para TV
"Cinema Verite"
"Mildred Pierce"
"Downtown Abbey"
"Too big to fail"
"The Hour"
"Masterpiece"


Melhor atriz em minissérie ou filme para a TV
Romola Garai em “The Hour” (2011)
Diane Lane em Cinema Verite (2011)
Elizabeth McGovern em “Downton Abbey” (2010)
Emily Watson em “Appropriate Adult” (2011)
Kate Winslet em “Mildred Pierce” (2011)

Melhor ator - minissérie ou filme para TV
Hugh Bonneville em “Downton Abbey” (2010)
Idris Elba em “Luther” (2010)
William Hurt em "Too Big to Fail" (2011) (TV)
Bill Nighy em Page Eight (2011) (TV)
Dominic West em “The Hour” (2011)


Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV
Sofia Vergara, "Modern Family"
Jessica Lange, "American Horror Story"
Kelly Macdonald, "Boardwalk Empire"
Maggie Smith, "Downton Abbey"
Evan Rachel Wood, "Mildred Pierce"

Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV
Tim Robbins, "Cinema Verite"
Eric Stonestreet, "Modern Family"
Peter Dinklange, "Game of Thrones"
Paul Giamatti, "Too Big to Fail"
Guy Pearce, "Mildred Pierce"

Melhor série - musical ou comédia
“Enlightened”
“Episodes”
“Glee”
“Modern Family”
“New Girl”
 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Cigarros, mulheres, homens loucos e uma série perfeita


Perfeição. É o esse o adjetivo que mais se enquadra quando se fala de "Mad Men', série criada por Matthew Weiner, em 2007 e vencedora de 13 prêmios Emmy e o Globo de Ouro por Melhor Série Dramática em três anos consecutivos. É difícil dar a sinopse da série, mas vamos lá: "Mad Men"conta a história dos funcionários da agência publicitária Sterling Cooper e o cotidiano de suas famílias, amigos e a vida no escritório. Mas falar apenas isso seria desmerecer todo o roteiro, direção, trilha sonora e atuação dos atores. Para saber porque a série é tão boa, é preciso assistir. O que vemos não é mais um programa de televisão. Já é um clássico.

A série se passa nos anos 60 - a primeira temporada mostra as eleições de Nixon X Kennedy - e a construção da sociedade americana. Com isso, vemos o machismo, tabagismo, alcoolismo, sexismo, feminismo, adultério, homofobia e racismo, tudo com uma naturalisade agonizante. Aliás, o cigarro é uma personagem da série. Em absolutamente todos os episódios os atores estão fumando, seja na sala de exames, no restaurante ou no trem. E agência Sterling Cooper tenta justamente fazer campanha a favor do cigarro, já que foi nessa época que começaram os avisos sovre os males causados pelo tabaco. 


Na década de 60, o machismo estava no auge. Mulheres não ocupavam cargos altos - e as que ocupavam não tinham credibilidade - donas de casa eram as mulheres perfeitas, nascidas para servir e reproduzir. A melancolia dessas mulheres é mostrada de uma forma magnífica, graças às atuações das atrizes, todas excelentes. 

Por falar em atuaçao, o elenco é um dos melhores da televisão. Jon Hamm - interpretando o protagonista Don Draper - merece todos os prêmios conquistados, assim como a interpretação deliciosa de Elizabeth Moss (Peggy Olsen), a ingênua nova funcionária da Sterling Cooper e secretária de Draper. Nenhum ator é desperdiçado e nenhuma personagem é deixada de lado. As histórias ganham destaque no decorrer dos episódios e você não vê o tempo passar, coisa rara pra uma série que tem quase uma hora de duração em seus 13 primeiros episódios. 
É saber sobre a cultura americana, hábitos da "american way of life". É saber sobre publicidade e suas facetas. É presenciar - sim, porque a produção é tão bem feita que eles conseguem te transportar pra 1960 - uma década histórica dos EUA. É presenciar a melhor série no art atualmente, algo que tinha acabado depois de "The Sopranos" e "Six Feet Under".

Não é uma série pra qualquer um. Não espere histórias mirabolantes nem enredos cheios de reviravoltas. Refina seu gosto, sente e admire a melhor coisa da televisão.



A quinta temporada da série estréia dia 25 de março, nos EUA ou em um computador perto de você.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O delicado "Tomboy"

Ao contrário do que os críticos especializados andam dizendo, o drama francês "Tomboy" (algo como "menina que se comporta como menino") não usa a temática gay como base. É mais uma obra sobre identidade pessoal e construção do caráter do que propriamente orientação sexual, embora o a personagem sinta atração pelo mesmo sexo. Dirigido pela francesa Céline Sciamma, o filme conta a história de Laure - vivida pela surpreendente Zoé Héran - que aproveita a mudança da família para outro bairro e, sendo confundida com um menino, decide se passar por um. O que vemos a partir daí são vários retratos que vão do fim da infância, descoberta da sexualidade e relacionamento familiar.

Em nenhum momento o tema preconceito é dito no filme, pelo contrárioem. Em uma das cenas, a mãe de Laure diz que não vê problema que a filha brinque de menino. E não é surpresa quando começamos a confudir a menina Laure com o menino Michael - nome que a garota se autointitulou. A menina não se sente desconfortável ao se comportar como um menino. É justamente o contrário. E é natural.

O relacionamento com a irmã mais nova é feito delicadamente. Tão delicado que o simples olhar das duas meninas já mostra a cumplicidade da relação e em momento algum a inteligência da menor é subestimada. Ela sabe que sua irmã finge ser menino e até gosta, já que "é legal ter um irmão que a defenda", e é emocionante a cena do jantar em que ocorre uma aceitação feita pela criança. Ao mesmo tempo, é visível a comparação que fazemos - e percebemos que Laure também faz - com o comportamento feminino da irmã mais nova e o jeito masculino da mais velha. A ingenuidade é tratada de forma brilhante. O público sabe que Laure não vai conseguir manter sua mentira por muito tempo e isso nos leva a acompanhar o raciocínio da menina, trazendo uma experiência vívida sobre as incertezas e descobertas que a vida traz.

Não é um filme sobre homossexualismo. O comportamento de Laure pode ser permanente ou não, mas em jamais as persoagens discutem isso. A mentira doeu mais do que o fato. No fim, é uma história simples sobre inocência, descoberta da identidade e formação de caráter. Uma criança pode ser carinhosa ou cruel, mas antes de tudo, ela é sincera.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um diálogo sobre "Amanhecer - Parte I"


Estava eu, no conforto de meu lar, quando o telefone toca. É a minha vizinha querida, a Sra. Renesmee, 90 anos de pura saúde, querendo comentar sobre "Amanhecer - Parte 1". Segue o diálogo:

Rodrigo: Alô.
Renesmee: Alô, Rodrigo?
Rodrigo: Sim. Tudo bem, dona Renesmee?
Renesmee:  Tudo bem, sim, querido. Acabei de voltar do cinema. Meu netinho me levou pra ver Amanhecer, aquele filme daquela menina...como é mesmo o nome? Eduardo? Já assistiu, querido?
Rodrigo: Já sim. O nome da menina é Bella, dona Renesmee. O Edward é o menino.
Renesmee: Ah, sim! Estou ficando velha. Meu netinho gosta muito desse Eduardo. Tem até pôster dele. Mas, enfim, que bom que você já assistiu. Estou com algumas dúvidas.
Rodrigo: Pode perguntar.
Renesmee: Aquela menina, a Bella, por que ela é suícida daquele jeito, meu querido? Ela já aceitou ser mordida por esse demônio chamado vampiro, ficou se oferecendo pra aquele moço musculoso, o lobo que também é homem, foi se meter aonde não é chamada pra entrar em contato com o vampiro magro que o meu neto gosta e agora decide perder a virgindade com o menino que meu neto admira antes de ser transformada em vampirinha. Se já não bastasse, ela engravida de um vampirinho bebê e decide ter o demoniozinho mesmo sabendo que pode morrer.
Rodrigo: Ah! Não sei. Deve ser pra criar tensão no público, sabe?
Renesmee: Hum. E por que, mesmo casando com o vampiro que meu neto adora, ela continua com aquela cara triste e um pouco depressiva?
Rodrigo: Porque isso expressa as adolescentes de hoje, imagino. E porque ela é má atriz.
Renesmee: Entendi. E por que nada acontece no filme? Digo, eu quase dormi. Só não dormi porque meu neto dava gritinhos quando o moço vampiro aparecia. Mas, enfim, o menino...Eduardo? Ele ta bem macho provedor, a menina Bella fica olhando com cara depressiva pra tudo o que acontece, o lobo musculoso que também é homem (ou é homem que também é lobo?) fica nervoso porque tá com dor de cotovelo e sai correndo e tira a camisa. Achei forte essa cena. Meu neto se mexia nessa hora.
Rodrigo: Dizem que é pra demonstrar toda a passagem do tempo e que está igualzinho o livro
Renesmee: Hum. Entendi. Sabe, eu sou católica. Adoro essa autora aí que escreveu essas historinhas. Meu neto adora. Ela traz uma tradição moral e religiosa de que a mulher deve se manter virgem até o casamento. Mas não entendi. Por que o vampiro que meu neto suspira quando aparece não queria tocar na esposa depois de casar? Ele tem algum bloqueio? Ele nem a machucou muito. Meu falecido marido fazia mais que aquilo, sabe. Que saudades!
Rodrigo: Ah, é pra passar uma lição moral de que os homens devem ser assim. Respeitar. 
Renesmee: Hum. Entendi. Não gosto desse menino que meu neto adora. Ele tem o que? 200 anos de idade? Meu neto disse que ele é virgem e sorriu. A esposa até implorava o coito. Por favor, por favor, ela dizia.
Rodrigo: (risos)
Renesmee: Querido, o Brasil aparece! Mas não entendi muito bem. Já estive no Rio. Por que eles fizeram algo como se o nosso país fosse palco de lendas antigas, que vivemos dançando samba, rindo igual idiotas? Eles parecem bastante impressionados com isso também. E quando estão naquela linda casa de praia, uma mulher fala "Nossa" e "Morte" e a moça Bella faz aquela cara esquisita. Fiquei cosntrangida. Eu me peguei gargalhando e algumas meninas estavam olhando pra mim com um cara muito assustadora.
Rodrigo: Sra. Renesmee, nunca ofenda ou banalize nada relacionado à Crepúsculo. Falo pro seu próprio bem.
Renesmee: Obrigada. Os diálogos, querido, são tão chatinhos. A moça Bella pergunta "por que não consegue ver que estou feliz?". Poxa, a menina fica com aquela cara triste sempre. O vampiro que meu neto dá pulinhos fala "se ela morrer, você vai conseguir o que quer. Me matar". Poxa, isso é muito ruim.
Rodrigo: Só faltou falarem que vão viver de amor. Oh, wait.
Renesmee: E aquela gravidez, querido? Estou chocada! Não sabia que negócio de vampiro era tão rápido! Pelo menos a maquiagem que fizeram na menina Bella pra ela emagrecer estava muito boa. Fiquei tensa! Mas, então, aquele parto, querido, o menino vampiro bebê monstro ficava comendo ela por dentro, até que tiveram a brilhante ideia de dar sangue pra moça. Huuuum, que gostoso, ela disse. Aí o bebê chuta, o vampiro Eduardo que meu neto tem admiração fica feliz e eles se abraçam. Dormi um pouco nessa hora, mas acordei na hora do parto. Fiquei tensa! Não entendi o que acontecia. O bebê nasceu com dentes já? Garras? Tão bonitinho. O menino Eduardo fica dando mordiscadas pra Bella acordar. Enquanto isso, tem uma história aí de uma matilha de lobo e o musculoso loboso, lobomem, lobisomem, não sei, vira o líder. Não compreendi. Ninguém parecia muito interessado.
Rodrigo: Eu ri muito no parto.
Renesmee: Fiquei boba quando deram o meu nome pro bebê! Falaram que era único e apropriado pra situação. Me senti ofendida. Ai, enfim, o filme acabou, Bella acordou com olhos vermelhos vampira e algumas meninas davam gritinhos com a música alegre que tocava no final. Meu neto fez isso também, mas eu o repreendi. Estou começando a achar esse comportamento muito estranho.
Rodrigo: Dá uma sensação tão boa quanto acaba, né?
Renesmee: Muito. Bom, querido, já vou desligar. Ainda bem que você também não gostou muito. Achei que eu estivesse ficando velha e não entendesse a linguagem dos jovens ou que não tivesse lido o livro. Sempre achei que, quando se faz um filme baseado em um livro, este não deve ser essencial pro entendimento da obra, já que ninguém é obrigado a ler. O filme é ruim mesmo.
Rodrigo: Fique tranquila. A senhora está ótima! O filme é realmente muito ruim.
Renesmee: Durma bem, querido. Meu neto continua olhando pro pôster do vampiro. Não sei o que acontece.
Rodrigo: Eu sei.
Renesmee: Sabe? O que é, querido?
Rodrigo: Preciso desligar. Boa noite, senhora Renesmee.
Renesmee: Boa noite, querido. 



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Amanhecer? Crepúsculo? Lua? Isso porque você não conheceu Buffy


Eu sei que hoje em dia é tudo mais pop, tudo mais rápido, tudo mais colorido. Eu entendo o sucesso da saga "Crepúsculo" e até acho bom todo o material promocional e as mensagens que a autora passa. Mentira. Não entendo nada. Não sou imparcial. Vampiro, pra mim, sempre será os da caçadora Buffy.
"Buffy, a caça-vampiros" é uma série muito difícil de recomendar. A começar pelo título. Pare e analise: você está vendo uma série sobre uma caçadora de vampiros loira, que luta com seus amigos indefesos numa high school estadunidense. A primeira temporada também não é nada boa, muito pelo contrário. É claro que você continua, porque o Sr. Joss Whedon - criador da série - escreve diálogos interessantes, os atores são carismáticos e é legal pra passar o tempo. Outro motivo é lembrar de onde a história vem. O filme homônimo - lançado em 1992 - é muito ruim, além de ter sido um fracasso de bilheteria. O enredo é mais ou menos este: a cada geração, nasce uma caçadora de vampiros e outras forças das trevas. Essas Caçadoras são guiadas por um guardião. Trash, não? Em 1997, Buffy estreou pra tapar um buraco na programação americana (o antigo e legal WBTV) e foi renovada pra segunda temporada. Aí nós começamos a conversar seriamente.


A série sempre tinha seu monstro da semana e tinha uma história com começo, meio e fim, enquanto uma mais importante ia acontecendo ao fundo. Até aí, nenhuma novidade. Só que os roteiristas fizeram a coisa mais legal que podiam ter feito: transformaram o galã da série no vilão. E esse galã era o par da protagonista. E você não consegue tirar os olhos da TV. Surge também o bad boy Spike, que terá uma importância gigante nas outras temporadas. Buffy se firmou aí

A terceira temporada - e mais elogiada - não só mostrou que uma série sobre vampiros e demônios pode ser inteligente como também trouxe uma outra caçadora, tirou personagens e colocou outros importantes para a trama, levando alguns à outra série ("Angel", mas essa é outra série, outro post). Foi nesse momento que o programa mostrou que os vampiros eram apenas uma metáfora. "Buffy" entrega um texto tão bom que é possível fazer análises sobre a adolescência. Oh, wait. Foi feito. Um estudo alemão considerou a série como a melhor em mostrar a transição adolescente-adulto.
                     Hush

A quarta temporada deu início aos episódios memoráveis e elogiados. "Hush" ganhou o Emmy de Melhor Roteiro ao mostrar demônios chegarem à Sunnydale - cidade em que se passava a série - e roubar os corações e vozes dos cidadãos. São quase 40 minutos sem nenhum diálogo.
Já na quinta temporada, Joss Whedon escreveu aquele que é considerado o melhor episódio de toda a série: "The Body", em que Buffy encontra sua mãe morta no sofá da sala. Não há monstros, não há vampiros, não há trilha sonora, nem um roteiro mirabolante. Apenas o luto e a atuação de Sarah Michelle Gellar, que mostrou não ser uma atriz limitada. Aliás, essa temporada poderia ter sido a última, já que a série foi cancelada, mas mudou de emissora. Seu último episódio mostra a morte de Buffy.

"The Body"

Já o sexto ano teve o episódio musical "Once more, with feelings". Joss Whedon fez um episódio impecável. As músicas não só traziam característas dos personagens como também influenciaram no andamento da temporada, como Buffy descobrindo que, ao contrário do que os amigos pensavam ao ressuscita-lá, ela estava no paraíso e não no inferno. Depois desse episódio, várias séries tiveram a mesma ideia, como "Six Feet Under", "Scrubs", "Fringe" e "House".

Não é exagero. Buffy foi um marco na história da televisão. Lá pelas tantas, a personagem Willow - interpretada pela sempre simpática Alyson Hannigan - se descobre lésbica e começa uma relação com Tara. A série desenvolveu esse assunto sutilmente, desde as dúvidas das personagens até o preconceito dos próprios amigos. O amor de Willow e Tara é um dos mais bonitos da TV e o fim das duas um dos mais tristes também. Outro fato interessante foi que a menina loira e bonita não era mais a frágil e burra. Buffy influenciou uma geração de outras séries.



Tinha Anya, a demônio que realizava os desejos das mulheres em destruir os homens e depois se tornou a melhor personagem da série. Tinha Faith, a outra caçadora. Haviam episódios geniais, como "Normal Again" em que Buffy é dopada e tem uma alucinação de que tudo não passou de um sonho e ela era louca, ou "Halloween", em que os donos assumiam as personalidades de suas fantasias, "Conversation with dead people", em que as personagens conversavam com outros mortos. Tinha a abertura mais legal da TV.

A série teve 7 temporadas com a proeza de melhorar a cada ano. Se ainda não assistiu, não é o seriado que vai mudar sua vida nem fazer você ter reflexões profundas, mas vai perder a série mais interessante que eu já tive o prazer de assistir.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"American Horror Story" ousou, mas nem precisava


Assim como aconteceu com "True Blood" em sua primeira temporada, "American Horror Story" tornou-se a série mais vista de um canal fechado. Sua season finale atraiu cerca de 3,4 milhões de pessoas. Ryan Muprhy - criador de "Glee" - voltou a fazer o que mais sabe: escrever roteiros absurdos, com cenas chocantes, mesmo que não faça muito sentido e subestime a inteligência do espectador. O legal é que ele faz isso muito bem, mesmo quando a coisa é ruim. Ora, você nunca viu "Nip/Tuck"? Deveria.

Pra quem não sabe, a história não é diferente de tantas outras. A família Harmon se muda de Boston para Los Angeles depois que a mãe sofre um aborto e o pai tem um caso extraconjugal. No novo lar, eles descobrem que a propriedade guarda segredos e histórias horripilantes. É claro que Murphy choca. Lá pelas tantas, um cara aparece com uma roupa feita de látex e transa com a matriarca (que não desconfia de nada, porque quando o seu marido aparece sem falar nada vestindo uma roupa preta assustadora você age normalmente e acha sexy. Só que ele não é seu marido), uma criança deformada mora no sótão da casa, a empregada de uns 60 anos tem um jeito estranho, mas aos olhos dos homens infiéis ela é uma garota sensual, cérebros humanos são servidos no jantar porque isso faz bem ao feto e muito, muito, muito mais. Tudo bem, não é uma história de horror americana, mas é uma história divertidíssima de horror americana.

Jessica Lang 

As atuações - que começaram tão fracas - vão melhorando a cada episódio. É visível a interação das personagens. Vivien - a mãe - interpretada pela incrível Connie Britton ("Friday Night Lights"), começou meio perdida e acertou o tom, sendo a única a perceber que o certo era sair correndo daquela casa. Taissa Farmiga - irmã da Vera Farmiga, aquela linda - foi uma grata surpresa e fez a adolescente chata sem fazer o público se irritar. O marido infiel Ben (Dylan McDermott) não foi lá muito impressionante, mas cumpriu direitinho seu papel. Tivemos a volta da sensacional Frances Conroy ("Six Feet Under") interpretando a governanta da casa. Mas a série não é de nenhum deles. Ela pertence à Jessica Lange, que interpretou a vizinha Constance, que sabia de tudo e escondia de todos. A mulher simplesmente roubava todas as cenas e nem precisava falar nada. Seu olhar, o jeito de fumar, o modo de pronunciar, seu jeito de andar. Tudo era digno de aplausos. Tanto que até agora não sei se devo odiá-la ou sentir pena. Emmy pra ela já!

 BU!

O interessante é que Ryan Murphy e Brad Falchuk - também criador da série - fizeram um samba do criolo doido lá pela metade da temporada e tudo parecia uma confusão só. Cada episódio entregava mais personagens e virou a casa maluca. Era fantasma correndo pra lá, a mulher gritando pra cá, o marido achando que a esposa está ficanso louca (zzz...ZZ), a amante do marido baixando a cabeça jurando vingança, o cara com o rosto deformado cobrando um dinheiro e assustando todo mundo e mais, muito mais. Até que eles resolveram parar com isso e explicar. Aí eles acertaram. A história de todos esses fantasmas mostrou-se interessante e relevante pra todo aquele roteiro doido e foi a partir desse momento que os roteiristas resolveram arriscar. Mataram personagens queridos, deram explicações ousadas e continuaram a matar todos os finais felizes.

O último episódio fechou muito bem. É claro que teve muita cena ridícula, mas a série inteira, se for analisar friamente, é meio ridícula. Não dá pra levar a sério uma história com tanta bizarrice sem sentido e todos os roteiristas parecem ter entendido isso. É sentar, levar alguns sustos e se envolver com a família. Outra vantagem - inteligentíssima e lucrativa - é que cada temporada terá uma nova história e uma nova casa. Assim, nem os atores ficam presos aos papéis por anos, nem os roteiristas ficam engessados numa história linear pra cada temporada.

"American Horror Story" foi indicada à Melhor Série no Globo de Ouro, mas não merecia. Isso não quer dizer que ela é ruim, mas se você se importa com premiações, é outro belo motivo. Vai, aproveita que a temporada acabou e dá uma chance. É um "Os Fantasmas se Divertem" moderno. Sente, apague a luz e fique viciado. É diversão garantida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A rainha do crime e seus súditos

















Lendo uma matéria sobre Agatha Christie - publicada na simpática revista "Ler & Cia.", disponível nas Livrarias Curitiba - lembrei que eu não estava defendendo uma das minhas autoras favoritas, até mesmo dizendo que era leitura ruim. Ora, não é! Por isso, roubei o título da matéria da revista, porque Agatha é e sempre será a rainha do romance policial.

Com cerca de 80 livros publicados, Agatha começou a escrever por acaso e logo percebeu que dominava este tipo de estrutura. Tanto dominava que, até hoje, é a escritora com mais livros vendidos no mundo (2 bilhões de cópias). Seu primeiro romance, "O Misterioso Caso de Styles" já mostrava como ela podia criar um história complexa, inteligente e - o mais importante - imprevisível. Descobrir quem é o assassino torna-se uma experiência deliciosa para o leitor e quando alguém acha que desvendou o segredo, Agatha mostra que não era nada disso. Por vezes, os motivos eram simples e ingênuos, como é o caso do psicológico "A Casa Torta" (um de seus melhores livros), em outros, a trama é cheia de segredos e cúmplices, como "Assassinato no Expresso do Oriente".

Os detetives da escritora são tão famosos e importantes quanto Sherlock Holmes. Seu principal - Hercule Poirot - inspira autores de romances policiais até hoje. Assim como a simpática velhinha Miss Marple, que com ironia e inteligência, desvendava os mistérios com maestria.

Com tantos livros publicados, manter uma qualidade é difícil. A escritora teve seu primeiro romance publicado em 1920 e escreveu até 1976 - ano de sua morte - com cerca de um livro por ano. Alguns de seus últimos livros - dizem os críticos - começam a ficar cansativos e desobrir o mistério não é tão difícil, já que ela utiliza de fórmulas muito parecidas. Porém, Agatha concluiu a história de Hercule Poirot com inovações, fazendo-o revisitar o seu primeiro caso em "Cai o Pano" e os leitores voltam ao cenário de seu primeiro romance. Agatha concluiu também a história de Miss Marple, em "Um Crime Adormecido". Os livros foram publicados pouco antes de sua morte, com exceção deste último, publicado após a morte da escritora, seguida de sua autobiografia,

Agatha Christie escreveu verdadeiras obras-primas, que são aclamadas até hoje. "O Assassinato de Roger Ackroyd" conta a história da morte do rico Roger Ackroyd, assassinado a punhaladas com uma adaga. É a terceira de uma série de estranhas mortes, que despertam a atenção da solteirona e sagaz Caroline Sheppard, irmã do médico da cidade e narrador deste romance. Intrigada, Caroline resolve investigar o caso e descobrir se as três mortes têm alguma ligação. O livro vendeu 5.000 em apenas um ano e é considerado o melhor livro da autora.

Já em "Assassinato no Expresso do Oriente", um homem é assassinado num luxuoso trem. Acontece que todos os suspeitos teriam bons motivos para tê-lo matado. Por sorte, na viagem está Hercule Poirot, o pequeno detetive belga que irá apurar os fatos e extinguir o mistério. O livro é um dos mais bem sucedidos da escritora e já foi adaptado diversas vezes para o cinema e o teatro.

Talvez, o livro mais famoso e inteligente de Agatha seja "O Caso dos Dez Negrinhos" ("E não sobrou nenhum", título alterado após a polêmica de racismo). O livro conta a história de 10 pessoas que são convidadas pelo misterioso U.N. Owen para passar alguns dias numa ilha perto de uma aldeia pouco movimentada. Os convidados aceitam o convite e de igual maneira embarcam para a ilha. Na primeira noite, quando todos já se conheciam razoavelmente bem e conviviam animadamente na sala, ouve-se uma voz vinda das paredes da sala, acusando cada um dos dez presentes de ter cometido um crime,  que apesar de ser desproposital, levou à morte de outras pessoas. O pânico instala-se e mortes inexplicáveis se sucedem, tendo por única pista uma canção de ninar. As pessoas vão morrendo de acordo com os versos. Sem detetives ou polícia, o enredo prende até o seu impressionante - e inteligentíssimo - final.

Se você gosta de romance policial ou do sempre interessante "quem matou quem", Agatha Christie entrega uma série de livros geniais e bem escritos. A editora "L&PM" publicou diversos livros da autora em versão Pocket. Larga do preconceito e descubra o motivo da Duquesa da Morte ser uma das grandes escritoras reconhecidas até hoje. Afinal, livros que foram publicados na décado de 20 e que até hoje fazem sucesso não podem ser ruins. E não são.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Holocausto sob o olhar de uma criança

Histórias sobre o Holocausto já foram exploradas incansavelmente, tanto pelo cinema quanto pela literatura e não parecem ter fim."O Menino do Pijama Listrado" é um dos diversos livros aclamados pela crítica e que já vendeu mais de 5 milhões em todo mundo (algo não muito difícil quando se trata do horror aos judeus. Os americanos adoram). Na história, Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final contra os judeus. Também não faz ideia de que seu país está em guerra com boa parte da Europa, e muito menos de que sua família está envolvida no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que foi obrigado a abandonar a espaçosa casa em que vivia em Berlim e mudar-se para uma região desolada, onde ele não tem ninguém para brincar nem nada para fazer. Da janela do quarto, Bruno pode ver uma cerca, e, para além dela, centenas de pessoas de pijama, que sempre o deixam com um frio na barriga. Em uma de suas andanças Bruno conhece Shmuel, um garoto do outro lado da cerca que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos dois se intensifica, Bruno vai aos poucos tentando solucionar o mistério que ronda as atividades de seu pai.

O livro prima pela inocência e a ótica de Bruno ao tentar analisar os horrores da II Guerra Mundial. Com capítulos curtos e diretos, cada análise da criança é um quebra-cabeça que vai se encaixando até a descoberta final e não é surpresa quando, mesmo já sabendo da história, o leitor consiga refletir junto com Bruno os motivos daqueles fatos. Por que o criado aparecia sempre mais magro e fraco? Por que, ao cair do balanço e ser socorrido por um judeu, a mãe recomenda que ninguém saiba disso? Por que a fumaça preta no céu fede tanto? Por que eles não são "pessoas como nós"?
John Boyne escreveu a obra em apenas duas semanas e a fez com maestria. Perturbador, o livro não escancara e nem utiliza clichês para emocionar (é sempre esse o motivo) e é justamente a inocência de Bruno que mostra o terror de uma época em que ninguém deve esquecer. Com sutileza, Boyne não é unilateral, apontando atitudes admiráveis em alguns alemães, principalmente a mãe do garoto. Sutilmente também, o autor mostra que algumas pessoas simplesmente não faziam ideia do que acontecia nos campos de concentração. O grande mérito é que Boyne consegue escapar de todos os momentos que poderiam ser extremamente piegas, porém, de tão simples, o livro se torna uma fábula sobre a amizade, tendo como pano de fundo os horrores da Alemanha nazista.


Se o livro acerta em todos esses elementos, o filme - dirigido e escrito por Mark Herman - falha em diversos aspectos. É claro que todos esperam se emocionar, mas a preguiça em sair do lugar comum fica visível. Não entrando na questão das diferenças gritantes entre o livro e o filme, Herman e o produtor David Heyman (também produtor da franquia Harry Potter) fazem mais do mesmo, descartando o leque de possibilidades de explorar o olhar de uma criança sob a situação do país.

Com um orçamento visivelmente pequeno, as cenas não chocam tanto como deveriam - ao menos é o que o produtor queria - e a atuação do pequeno Bruno (Asa Butterfield) é robotizada ao extremo. A direção peca em apostar no grande olho azul do menino e um rosto confuso, achando que bastaria para passar a grande aflição do garoto em tentar entender o que acontece. Outra grande falha é o equilíbrio entre a sutileza e os momentos dramáticos. Certos momentos exigiam (e ficariam muito melhores) que as cenas fossem carregadas de mais informações e drama, assim como outras partes poderiam ter sido suavizadas, já que se tornava mais do mesmo e já vimos isso em diversos filmes sobre o tema.

Porém, Herman acerta em mostrar a alienação que a Alemanha colocava. Numa bela cena, vemos a irmã de Bruno, Gretel (Amber Beattie) colocar suas bonecas de lado e colar pôsteres sobre o nazismo e o culto à Hitler. Assim como logo no ínicio, Bruno e seus amigos brincam alegremente, enquanto bandeiras nazistas fervilhavam a cidade e judeus eram levados embora. Outro grande acerto foi a escolha dos atores para viver os pais de Bruno. Interpretada pela sempre ótima Vera Farmiga, a atriz carrega o filme nas costas e é responsável pela parte mais dramática do longa. Assim como David Thwlis (o Lupin, de Harry Potter) mostra o lado paternal de um comandante de Hitler.

Mesmo com todos esses problemas, o filme consegue alcançar o propósito de ser um arranca lágrimas fácil. É sempre bom naquelas noites chuvosas em que você quer ver um drama, não necessariamente bom. Ainda vale mais desligar a TV e ler o livro.