sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma vida sem felicidade


O amor é teorizado. Crônicas, músicas, poesias, filmes, todos informam que é o sentimento mais perturbador, necessário e bonito. E que não devemos nos envergonhar, seja qual for o tipo. Mas há amores que a sociedade diz serem errados, evitados e calados. O que "Beleza" (Skoonheid, 2011) - filme do diretor sul-africano Oliver Hermanus - mostra é que, teoricamente, nenhuma forma de amor deve ser retraída, porém, há pessoas que  odeiam o próprio sentimento, criando uma vida crua e sem felicidade.

François (Deon Lotz) é um homem casado, pai de 2 filhas e leva uma vida considerada normal. Conversa com sua mulher antes de dormir, acorda, lava o rosto, sai para o trabalho, conversa trivialidades com os amigos. Porém, precisa lidar com a atração sentida por outros homens e o conflito que o sentimento desperta nele. No casamento de sua filha, encontra-se com Christian (Charlie Keegan), filho de um velho amigo, e a atração por ele logo torna-se uma obsessão.

Desde o início, Hermanus filma sem pressa. Planos longos, fechados e lentos tomam conta de todo o filme. Não há alívio cômico. A opção por um filme monótono e sem grandes reviravoltas é acertada. O incômodo e depressão vividos por François são brilhantemente sentidos pelo público. Monótono não é sinônimo de desinteressante (ao menos no longa) e as cenas parecem aleatórias, mas todas dizem como a vida daquele homem é vazia. François vive em uma eterna atuação. Dentro de casa os diálogos são mínimos e não há sorrisos. Em seus encontros de orgias secretas com outros homens o tom educado e cordial tenta mostrar que há uma normalidade ali. Com a sociedade, François se mostra feliz, equilibrado e sem problemas. Já não existe mais identidade. François é o padrão que a sociedade espera e as consequências de um sentimento enrustido são mostradas aos poucos.

A opção de Hermanus em filmar muito do filme pelo ponto de vista de François garante belíssimas cenas, como a de abertura e a da lanchonete, quase no fim do filme. Nessas cenas, vemos o fio de esperança de François, sua melancolia, seu horror, seu medo e suas dúvidas. Muito da ação desenvolvida na obra é sutil. A câmera foca no rosto de François e sua expressão diz mais coisas do que o roteiro poderia explicitar. Não é necessário contar, a angústia daquele homem é palpável, graças à direção segura. E quando Hermanus decide mostrar até onde o sentimento reprimido de François pode o levar, o faz de uma forma chocante, na cena mais forte do longa.


Alguns problemas ocorrem durante a história. Certas situações parecem serem postas e não são desenvolvidas corretamente. O final é aberto a inúmeras conclusões, porém, algumas questões são ignoradas. Há a diferença do público interpretar e imaginar respostas e há o simples exercício de jogar situações que exigem, pelo menos, algum indício do que poderia acontecer. Aqui, infelizmente, muito do que não é contado precisa de um desenvolvimento, deixando a obra um tanto desequilibrada. Se em certos momentos a sutileza e a atuação propositalmente apática de Deon Lotz comunica exatamente o que está acontecendo, em outros parece ter havido preguiça em dar uma conclusão a algo exposto.

Porém, essas pequenas falhas não prejudicam a experiência. Hermanus, com seu olhar pessoal, filma com personalidade. O incômodo se mostra muito bem apresentado e o diretor consegue fazer com que nós, meros espectadores que julgam François, nos coloquemos na pele do personagem. Não há nenhuma grande discussão, nenhuma cena conclusiva e nenhum indício de libertação de uma vida tão sem graça. É um filme que milhares de François por aí deveriam ver. Mas não vão.