domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "O Lado Bom da Vida"


Há um certo preconceito em torno de "O Lado Bom da Vida". Dirigido por David O. Russel ("O Vencedor"), a originalidade passa longe e tudo soa trivial demais. A história você já viu em dezenas de filmes. Pat Solitano (Bradley Cooper) perdeu tudo na vida: sua casa, o emprego e a esposa. Deprimido, ele vai parar em uma clínica de reabilitação, onde fica internado por oito meses. Ao sair, Pat passa a morar com os pais e está decidido a reconstruir sua vida, o que inclui retomar o casamento, passando por cima de todos os problemas que teve. Entretanto, seu novo plano começa a mudar quando ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma garota cercada por problemas e não muito querida pelos moradores do bairro. Nenhuma novidade, banal até dizer chega, uma comédia romântica para passar o tempo. Então, onde está o grande trunfo e os méritos por suas oito indicações ao Oscar? Partindo da trivialidade, Russel constrói personagens crus, carismáticos, com uma direção excelente, diálogos rápidos e a prova de que a simplicidade usada de forma correta funciona muito bem, assim como a de que os clichês nem sempre prejudicam uma obra.

O filme entrega uma experiência deliciosa para os atores e para o público, já que a direção proporciona interações entre os personagens que enriquecem o longa a cada cena. Russel deixa que Jennifer Lawrence e Bradley Cooper trabalhem brilhantemente na tela. Desde o primeiro momento em que os dois dividem a cena, a química acontece quase que instantaneamente, refletindo a segurança da direção e o talento dos atores. Os temas abordados são sérios, mas o humor é leve e inteligente, sempre com um ritmo perfeito e uma edição inspirada. Os diálogos são rápidos, espertos, engraçados. Os outros atores acrescentam e deixam o filme no tom necessário para que o público se importe com cada um deles, especialmente o personagem de Robert De Niro, que parece ter encontrado o tom para comédia, assim como Jackie Weaver, que interpreta a mãe do protagonista. Lawrence justifica sua indicação a melhor atriz, saltando aos olhos o talento da jovem e Cooper encontra a interpretação ideal do homem bipolar que não entende ironias e diz o que pensa. A câmera abusa de todas as suas funcionalidades, com dezenas de contraplanos, ora fixa, ora em movimento, deixando tudo ágil e nada cansativo. A direção é detalhista, sempre preocupada com a emoção e conflitos dos atores. Percebam que na cena em que o personagem de Cooper recebe a carta de sua mulher, as cores mudam de um rosa vivo para um azul triste, sem luz, que mostra o cuidado e noção para mostrar o conflito do personagem naquele momento.


É verdade que "O Lado Bom da Vida" não traz nada de novo, mas nem sempre isso é necessário quando o trabalho é bem feito. Nenhum momento parece forçado, as cenas funcionam e fazem rir e o clichê não torna-se cafona. Passando por uma trilha sonora que vai de Led Zeppelin a Mettalica e Megadeth, o filme acaba sendo um grata surpresa ao nos relembrar que o cinema possui diversas funções, inclusive a de entregar duas boas e divertidas horas como essas, sem parecer que foi um desperdício de tempo. Afinal, o lado bom da vida é não levar tudo tão a sério.

Indicações

Melhor filme
Melhor ator (Bradley Cooper)
Melhor atriz (Jennifer Lawrence)
Melhor ator coadjuvante (Robert De Niro)
Melhor atriz coadjuvante (Jacki Weaver)
Melhor diretor
Melhor roteiro adaptado
Melhor montagem

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "A Hora Mais Escura"


11 de setembro de 2001. Tela preta, áudio de pessoas gritando, alguém não consegue respirar, uma rádio informa que dois aviões chocaram-se com o World Trade Center. Um pedido de ajuda. Silêncio. Dois anos depois, em 2003, vemos agentes da CIA torturando alguém envolvido com a Al-Qaeda, grupo terrorista responsável pelo ataque, para conseguir informações que os levem até Osama Bin Laden.

Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso, ela participa da operação de levou militares americanos a invadir o território paquistanês.

É esse clima tenso e desesperador que predomina durante os 157 minutos do novo filme dirigido por Kathryn Bigelow, dois anos após seu "Guerra ao Terror" vencer o Oscar de melhor filme. Mas se naquele filme Bigelow mostrou americanos arriscando a vida para desarmar bombas, aqui é necessário ter mais reflexão própria e levantar seus próprios questionamentos, já que "A Hora Mais Escura" é extremamente objetivo, como uma notícia jornalística, um relato dos fatos que depende muito mais do espectador do que das cenas. As torturas mostradas na tela não são defendidas, nem tampouco julgadas. As ações dos personagens são extremamente naturais, com uma normalidade incômoda. Toda a estratégia é crua, lenta, cheia de erros. Sai a CIA com suas mega operações e entram em cena vários tiros no escuro, inocentes morrendo por um erro de cálculo, erros humanos, atentados contra americanos acontecendo por falhas na inteligência do país. Bigelow avisa, logo no começo do longa, que o filme é baseado no relato inédito dos eventos reais que levaram ao assassinato de Osama Bin Laden. Quase em tom documental, o roteiro de Mark Boal nos leva para a complexa operação que demorou muito tempo para ter sua conclusão.


Para lembrarmos que "A Hora Mais Escura" trata-se de uma obra de ficção, vemos a excelente construção da protagonista Maya. A atuação de Jessica Chastain é cuidadosa e detalhista, assim como a direção de Bigelow. Chastain mostra sua frieza desde o início, mas pequenos gestos, olhares e tom de voz entregam a mistura de seus sentimentos que não são exteriorizados. Maya é obcecada, não tem vida pessoal, não tem família nem amigos. Ela é seca, assim como as ações do filme. Não há cenas que indiquem um alívio da tensão. É curioso perceber que Maya é uma estrategista, observadora, não um soldado no campo de batalha. Não a vemos em ação, apenas acompanhamos como a guerra é tratada atrás das mesas dos escritórios da inteligência americana. Sua paranoia mostra-se completamente necessária, já que nem mesmo o governo acreditava que o terrorista pudesse ser encontrado. O extenso e excelente elenco só ajuda a dar mais qualidade ao longa, especialmente Kyle Chandler ("Friday Night Lights") e James Gandolfini ("Família Soprano").

Metade da ação se passa dentro da CIA. Vemos que o funcionamento e ação, na verdade, estão nas mãos de poucos, sem nenhum glamour ou facilidade. Há muita burocracia, rotinas, níveis de autoridade absurdos e muitos empecilhos que dificultam o trabalho. É assim que vemos Maya agir. E é assim que a diretora nos insere em um momento histórico para o mundo.


"A hora mais escura" é um termo usado pelas forças armadas dos EUA para se referir a uma hora não especificada da madrugada em que o céu ainda está todo escuro. A sequência final em que assistimos pelo recorte de realidade de Bigelow como foi a operação para matar Bin Laden é construída com uma intensa e constante tensão, auxiliada pela fotografia escura, cenas verdes da visão noturna e a trilha sonora eficiente. Aqui, Bigelow não mostra mais nada além da invasão na casa onde estava o terrorista. As avaliações sobre a ação dos personagens fica por conta do espectador.

Embora Bigelow tenha feito uma obra sem críticas ou justificativas e que este seja melhor que seu filme antecessor, dificilmente ela levará uma estatueta para casa, já que mostrar americanos torturando pessoas não foi bem visto pelos conservadores e não é exatamente um filme de guerra hollywoodiano. Oa EUA saem vitoriosos, mas o gosto final acaba sendo agridoce. O roteiro não faz questão de exaltar o patriotismo americano, apenas remonta fatos históricos, deixando que Bigelow entregue de forma brilhante uma aula de história moderna e o melhor filme da sua carreira.

Indicações

Melhor filme
Melhor atriz (Jessica Chastain)
Melhor roteiro original
Melhor montagem
Melhor edição de som

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "As Aventuras de Pi"


Ang Lee parece não gostar de dirigir obras comuns e é tentado por desafios. Adaptou o super-herói "Hulk",  fez um trabalho sobre tensão sexual em "Desejo e Perigo", mostrou ao mundo a história de um amor homossexual proibido em "O Segredo de Brokeback Mountain" e realizou um espetáculo com "O Tigre e o Dragão". Em "As Aventuras de Pi", Lee usou o melhor da tecnologia para contar uma história considerada inadaptável para o audiovisual e criando uma experiência visual incrível.

O longa, baseado no livro de Yann Martel (que ultimamente precisa responder a questões sobre um possível plágio de um autor brasileiro) conta a história de Pi Patel (Suraj Sharma), filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro em que todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um macaco, uma hiena e um tigre-de-bengala chamado Richard Parker. Em um filme em que os efeitos especiais são importantíssimos para a narrativa, Lee faz um trabalho memorável para o cinema, assim como Scorcese fez ano passado com "Hugo Cabret". A direção de Lee é tão competente que consegue emocionar com a relação do menino e o tigre, que é criado totalmente por computação gráfica e em nenhum momento parece ser falso.

A partir da cena do naufrágio até a conclusão da obra, Lee e toda a equipe técnica faz um trabalho primoroso e riquíssimo em detalhes. A profundidade de campo garante uma imersão do público impressionante. Aqui, nós começamos a acreditar que peixes voam e que a situação retratada na tela realmente aconteceu. Lee nos proporciona uma viagem e uma reflexão capaz de marcar por muito tempo na memória das pessoas. 


Há um forte lado religioso que permeia todo o longa. Mesmo que Lee tenha o cuidado de não pregar as diversas religiões do protagonista, é curioso perceber que o personagem entende que todos os desafios enfrentados são uma espécie de teste de sua fé. Lee até coloca no pai de Pi a voz que questiona a fé cega, mas o excesso do politicamente correto chega a incomodar em certo ponto. Pi, mesmo que à beira da morte, não questiona em nenhum momento sua fé em Deus. Talvez isso seja o papel do público, já que somos levados à reflexão e os acontecimentos podem ser considerados grandes metáforas. Sua relação com Deus pode ser discutida por todos, assim como a relação homem-animal, que parece ser o principal mote do filme.

O grande mérito de Lee foi criar um filme extremamente rico, discutindo a vida de maneira fácil por meio da relação com um animal e um garoto em um barco. As questões levantadas nos fazem refletir sobre nossas experiências e sentimentos. Tem lá suas falhas, como um começo demasiadamente cheio de informações e uma demora para engrenar, mas quando acontece, constrói um mundo muito fácil de ser acreditado e nos lembra que cinema é, principalmente, uma arte capaz de trazer reflexão.

Indicações

Melhor filme
Melhor diretor
Melhor roteiro adaptado
Melhor fotografia
Melhor edição
Melhor trilha sonora original
Melhor canção original 
Melhores efeitos visuais
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som
Melhor design de produção

Oscar 2013 - Crítica: "Indomável Sonhadora"


O drama prevalece entre os indicados ao Oscar 2013. Temos o amor de dois velhinhos que precisam reaprender a conviver novamente após um problema de saúde; temos duas histórias sobre escravidão; uma história sobre o terrorismo; o épico sobre pessoas miseráveis que sofrem e cantam suas angústias. Logo, é gratificante assistir a uma história tão triste como a de "Indomável Sonhadora" pelos olhos de uma criança que consegue enxergar beleza na miséria e sofrimento daquele cenário. 

Dirigido por Behn Zeitlin e baseado na peça teatral de Lucy Alibar, o longa mostra uma realidade não muito retratada pelo cinema americano. "Indomável Sonhadora" conta a história de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma menina de apenas 6 anos que vive em uma comunidade miserável chamada A Banheira, que recebe esse nome por ser uma ilha no meio de uma barragem. Ela está correndo o risco de ficar órfã, já que seu pai, Wink (Dwight Henry), está muito doente. Ele, por sua vez, se recusa a procurar ajuda e teima em não sair do local, que é considerado inabitável pelo governo. Um dia, pai e filha precisam lidar com as consequências trazidas por uma forte tempestade, que inunda toda a comunidade. Vivendo em um barco, eles encontram alguns amigos que os ajudam.

Nesse cenário desolador, os moradores de A Banheira se sentem livres e desprezam qualquer ajuda que possa vir de fora, já que isso implica em tirá-los do local, mesmo que vivam em constante tensão. A ilha é um amontoado de lixo, a bebida predomina, não existem médicos, não há escolas e a locomoção é feita por barcos. É nesse cenário que acompanhamos o difícil dia a dia dos moradores, com um ritmo lento e reflexivo. Aliás, o diretor alcança seu propósito ao nos dizer que, apesar da história parecer fantasiosa aos olhos da pequena Hushpuppy, o que acontece ali é real. Para isso, Zeitlin trabalha com um certo tom documental, a sujeira se destaca em todos os cantos, a câmera na mão (filmada em 16 mm) tem sempre movimentos bruscos, ângulos belíssimos e uma fotografia cheia de luz. É a esperança no meio da escuridão. E por mais que a trilha sonora nos leve a uma atmosfera um tanto quanto mágica e que a luz confira leveza ao longa, sempre voltamos para a miséria e urgência daquele povo. As moradias completamente vulneráveis, a segmentação de boa parte da sociedade e a teimosia de pessoas que preferem arriscar a própria vida do que sair de suas casas acabam gerando identificação, já que esse tipo de problema pode ser encontrado em muito países.


Ao longo do filme, vemos a estratégia do pai de Hushpuppy em treiná-la para não sentir medo, não chorar e, principalmente, sobreviver. O trabalho de direção com os atores confere mais realidade ao longa e o roteiro conduz a narrativa de uma forma que, mesmo que sem muitas surpresas, não o torna um filme chato. Mas é a pequena Quvenzhané Wallis a responsável por todo o encantamento visto na obra. Sendo a atriz mais nova a ser indicada ao Oscar até hoje (na época em que o filme foi gravado ela tinha 6 anos), Wallis merece todos os elogios que vem recebendo, principalmente o de ser uma "força da natureza", já que a pequena carrega uma dramaticidade incomum para crianças de sua idade.

"Indomável Sonhadora" se destaca mesmo quando evidencia as fantasias de sua protagonista. É encantador sermos embalados pelos sonhos da menina ou por quando ela imagina grandes animais pré-históricos, fazendo uma analogia com seu medo e o que precisa enfrentar. Quando focam apenas na crua realidade daquela comunidade, temos a sensação de dejá vu de filmes catástrofe. Por mais que não seja tão marcante como dizem, é uma experiência interessantes vermos uma vida vulnerável pelos olhos de uma criança que não para de sonhar.

Indicações

Melhor filme
Melhor diretor
Melhor atriz (Quvenzhané Wallis)
Melhor roteiro adaptado


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "Argo"


Quem diria que o favorito a ganhar o Oscar de melhor filme seja Ben Affleck e que mesmo a Academia ignorando-o na direção, "Argo" tem a força necessária para deixar seus concorrentes seriamente preocupados. "Argo" vem ganhando todos os prêmios por onde passa, além de marcar Affleck na lista dos diretores mais promissores do cinema e mostrando que um bom filme pode ser feito apenas com ótimas atuações e um roteiro redondo, mesmo que isso venha permeado por alguns exageros que não comprometem em nada sua obra.

Em seu terceiro filme como diretor, Affleck leva às telas a "melhor má ideia" que alguém poderia ter: em 1979, durante a crise política iraniana, Tony Mendez (Ben Affleck), especialista em exfiltração, é recrutado pela CIA para resgatar seis americanos, refugiados na casa do embaixador canadense em Teerã. Para a missão, Mendez e um maquiador de Hollywood criam um falso filme para tentar tirá-los do país.

O roteiro de Chris Terrio e Joshua Bearman é minucioso. Para quem conhece a história, mergulhar nos bastidores de uma trama tão absurda como esta torna-se uma experiência gratificante. Para quem não conhece, há a oportunidade de entender como esse período foi importante para as relações entre o Irã e os Estados Unidos, sem nunca cair no didatismo barato (a explicação no início do longa é excelente) e sem perder a característica de entretenimento, já que a excelente direção de Affleck cria um thriller capaz de deixar muita gente roendo as unhas.

Affleck entende que a trama é difícil de ser engolida e dizer que a história é baseada em fatos reais não é o suficiente. Então, o diretor faz questão de mostrar fotos dos personagens e reportagens da época durante os créditos finais, além de colocar várias cenas reais durante o filme, o que mostra um trabalho cuidadoso e uma pesquisa profunda sobre os fatos mostrados. Affleck é tão feliz em suas escolhas que decide mostrar um filme dentro de um filme, usando de maneira brilhante os recursos de metalinguagem. Para passar a ideia de quem eles realmente estavam produzindo um longa-metragem, toda a equipe deveria se empenhar para que os iranianos acreditassem que um filme de ficção científica muito parecido com "Star Wars" realmente sairia do papel. Nessa hora, Alleck nos mostra muito da forma de se produzir filmes hollywoodianos e decide alfinetar a indústria cinematográfica, mostrando seus vícios e seu pensamento em relação ao público. Além disso, o diretor usa, sim, o patriotismo americano para contar sua história, mas deixa que o público reflita sobre as ações do Irã, evidenciando que elas não foram assim tão incompreensíveis. A direção de arte é impecável, desde suas roupas até os cenários do início dos anos 80, assim como a fotografia, que alterna os momentos tensos do Irã com o tom cômico de Hollywood. A dificuldade na forma de comunicação é mostrada com brilhantismo, já que em uma época em que celulares não existiam, tudo era mais complicado quando precisava-se de um telefonema urgente. A inteligente trilha sonora cumpre a função de deixar o público tenso, sempre na hora certa.

Com um elenco muito bem selecionado, Affleck dirige com maestria cada um deles, e muitos são rostos conhecidos da televisão, como Tate Donovan ("Damages"), Kyle Chandler ("Friday Night Lights") e Richard Kind ("Mad About You"). Entre os destaques estão John Goodman e Alan Kirk, que conferem leveza ao longa. Bryan Cranston (da série "Breaking Bad") brilha em todas as cenas, mostrando seu excelente trabalho não apenas na televisão. Affleck não é lá muito bom ator, mas não decepciona e entrega seu melhor trabalho frente às câmeras.

Affleck segura firme todas as ações, nunca deixando o longa maçante. Tudo está ali, desde a apresentação dos personagens, os conflitos iniciais, os problemas durante o caminho, o clímax e a resolução. O roteiro é fechado e alcança seu propósito de mostrar uma história que foi  escondida por tanto tempo. Algumas falhas pontuam o longa, como a vida pessoal de Tony Mendez, que não convence e não acrescenta nada à narrativa, bem como os recursos para aumentar o clímax, bem no final da projeção, que só servem para criar uma tensão que já havia sido construída muito bem, o que deixa a conclusão um pouco exagerada. Mas, felizmente, o filme entrega tantos bons momentos que tudo isso torna-se perdoável. Se nos outros filmes indicados ao Oscar há o problema de ser demasiadamente longo, com cenas que poderiam ser cortadas sem dó, "Argo" consegue transmitir uma experiência na medida certa, contando uma história interessante sem precisar de explosões ou várias reviravoltas desnecessárias, entretendo o público com reflexão e mostrando que Affleck está no caminho certo, independente do que os membros da Academia pensam.

Indicações

Melhor filme
Melhor ator coadjuvante (Alan Kirk)
Melhor roteiro adaptado
Melhor edição
Melhor trilha sonora original
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som

Oscar 2013 - Crítica: "Django Livre"


Não é necessário introduzir Quentin Tarantino, já que seu nome, cada vez mais, é citado quando se discute sobre os grandes diretores de cinema desta geração. O diretor é conhecido pelos seus diálogos inteligentes, suas cenas longas e tensas e seu amor pela linguagem cinematográfica. Tarantino assume e incorpora vários estilos em seus filmes, sempre muito autoral. Suas obras são permeadas pela vingança e seus personagens são sempre fortes e marcantes. Embora "Django Livre" não seja o seu melhor trabalho -- nem melhor que seu antecessor, "Bastardos Inglórios" -- Tarantino consegue fazer uma obra linear, trabalhando com um roteiro simples, mas criando cenas memoráveis, mesmo que pequenos erros enfraqueçam a trama.

Inspirado pelo pistoleiro do longa italiano de Sergio Corbucci, lançado em 1966 e estrelado por Franco Nero, Django (Jamie Foxx) é um escravo, comprado pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz) para ajudá-lo em uma missão. A dupla acaba fazendo amizade e, após resolver os problemas do caçador, parte em busca por Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django. Para isso, eles devem enfrentar o vilão Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), proprietário da escrava. 

Em suas 2 horas e 45 minutos, "Django Livre" possui momentos brilhantes, já comuns nas obras do diretor, mesmo que não tenham alguma relação direta com a narrativa. Em um desses pequenos momentos, está uma espécia de reunião da Ku Klux Klan, em que o grupo discute sobre o uso de sacos brancos na cabeça, com seus buracos nos olhos que não os deixam enxergar direito. Ao mesmo tempo em que é divertido, refletimos sobre o quão ridículo o racismo pode ser. 

Tarantino, que já dialogava com o gênero faroeste em seus trabalhos anteriores, faz uma bela homenagem aos clássicos western spaghetti. Aqui, temos todos os recursos usados nesses filmes, como o zoom exagerado, os grandes letreiros passando pela tela, os tiros rápidos com a pistola e assim vai. Tarantino muda seu estilo ao filmar grandes tomadas abertas para mostrar os cenários de campos, assim como abusa da câmera lenta e closes inspirados, como o sangue jorrando nos algodões. Propositadamente e positivamente, Tarantino usa de mais frases de efeitos, cenas um tanto quanto cafonas e situações bem caricatas, mas o estilo do diretor pode ser encontrado em todas essas situações 

O trabalho de direção com os atores é, mais uma vez, admirável. Mesmo que Christoph Waltz repita sua atuação em "Bastardos Inglórios" e seu personagem seja quase o mesmo, com a diferença de não ser um vilão, Tarantino insere nele seus melhores diálogos. Mesmo que pareça um absurdo um alemão ser contratado para ser caçador de recompensas, o cinismo e bom humor de Waltz roubam a cena em todas as vezes em que ele aparece. Jamie Foxx, se não está atuando maravilhosamente, tem sua construção muito bem feita, já que começa como um simples ajudante e se transforma em um herói confiante e corajoso, sem que isso fique forçado ou pareça apressado. Leonardo DiCaprio mostra, mais uma vez, como se tornou um excelente ator e, mais uma vez, é injustiçado pela academia, que teima em não reconhecer seu talento. O personagem de DiCaprio mescla uma generosidade (que ele acha possuir) com olhares de ameaça e nenhuma sombra de remorso. Samuel L. Jackson -- quase irreconhecível devido ao excelente trabalho de maquiagem -- é responsável por ser o personagem mais odiável do longa e sua atuação consegue mostrar isso desde a primeira vez em que ele aparece.

Logo, é um pouco frustrante perceber que o filme perde o ritmo quando chega perto do fim. Talvez a morte da montadora Sally Menke, que trabalhou com Tarantino em seus trabalhos anteriores, tenha sido o principal fator dos pequenos erros que, se não chegam a prejudicar o longa, deixa um pouco a desejar. Tarantino exagera colocando uns 20 minutos a mais do que a projeção poderia ter. O banho de sangue no final já seria suficiente para deixar o público impressionado e satisfeito, mas o clímax não acontece nessa hora, e temos mais algumas cenas desnecessárias que não acrescentam nada. Embora divertida, a participação de Tarantino só serve para vermos como o diretor não tem talento para a atuação, e faz com que o longa se mostre repetitivo. E mesmo com o final vingativo e satisfatório, a cafonice proposital começa a incomodar. 

Mas "Django Livre" está longe de ser um filme ruim ou um erro na cinebiografia de Tarantino, muito pelo contrário. Mesmo que Django tenha sido guiado por um branco, Tarantino consegue trabalhar com o tema escravidão bem melhor que Spielberg, que tentou humanizar Lincoln, mas endeusou seu personagem a ponto de fazer ele parecer o único responsável pela abolição dos escravos. Tarantino, além de homenagear um gênero esquecido pelo cinema, cria mais um herói inesquecível e mais uma obra imperdível. Economizando na violência, o diretor conta uma parte da história americana de forma divertida sem perder a importância da reflexão.

Indicações

Melhor filme
Melhor ator coadjuvante (Christoph Waltz)
Melhor roteiro original
Melhor fotografia
Melhor edição de som

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "Lincoln"


"Lincoln" poderia ser um grande filme, e apenas não é por opção do seu próprio diretor, Steven Spielberg. Na verdade, a obra até pode ser considerada um grande filme sobre um dos presidentes mais importantes dos EUA, mas sua execução por muitas vezes torna-se enfadonha e cansativa. Spielberg decidiu tirar as grandes cenas e focar nos bastidores e diálogos de um determinado -- e importantíssimo -- período histórico americano. 

"Lincoln" é centrado nos últimos quatro meses de vida do 16º presidente dos Estados Unidos, que entrou para a história por ter sido o responsável pela emenda constitucional que acabou com a escravidão daquele país e que, consequentemente, deu fim à Guerra Civil. Com esse tema, o longa pode ser considerado feito para a Academia, correto e com todas as chances de ganhar o prêmio máximo. Mas estamos em 2013 e essas pequenas fórmulas não são tão fáceis assim. Líder de indicações ao Oscar -- foram 12 -- dificilmente Spielberg sai vitorioso. Aliás, a única certeza que se pode ter é que Daniel Day-Lewis levará o prêmio de melhor ator, já que sua atuação é riquíssima. Seu presidente é cheio de nuances, sempre com um tom de voz que faz seu personagem ser doce, porém determinado; seu andar é pesado, sua postura é baixa, seu olhar é cansado. Os 4 anos de governo e de guerra são transmitidos ao público de uma forma magnífica. Tommy Lee Jones mostra sua habitual perfeita atuação. O mesmo pode-se dizer de Sally Field, apesar de que esta última fica sempre na linha tênue entre uma grande interpretação e um exagero. 

A direção de arte constrói uma América do século 19 elogiável. A ambientação da época é impecável. A iluminação é baixa, a principal fonte de luz vem das janelas e a iluminação mais forte cai, claro, sobre o presidente, em um recurso nada sutil. Aliás, muitas das cenas parecem ser uma peça de teatro. Aqui, mesmo a escolha de Spielberg em não endeusar o presidente, todas as vezes em que ele aparece, surge de uma forma grandiosa, sempre sendo ouvido e com histórias -- muitas histórias -- para contar. A trilha de John Williams parece servir para situar o público quando a cena é dramática e quando tem um tom cômico.


O ponto mais interessante da obra é o dilema moral que Spielberg propõe. Em uma época em que o presidente era amado por todos, ele resolve mudar a Constituição e acabar com a escravidão. Somos mergulhados nos bastidores dessa batalha política e ética, já que vemos a equipe e o próprio Lincoln comprando votos da oposição, oferecendo empregos públicos com altos cargos e ficando em dúvida se acabaria com a guerra imediatamente ou estenderia-a apenas para alcançar seus propósitos. É assim que Spielberg consegue humanizar a figura do presidente, mostrando dilemas críticos e controversos em uma pessoa tão importante para a nação americana. E não é surpresa vermos sua equipe de governo corrompendo o sistema para conseguir o que desejam. É claro que em se tratando do fim da escravidão, nada disso soa estranho. Ainda, Spielberg mostra um pouco do dia a dia de Lincoln, sua relação com a esposa e com os filhos. Não há cenas de batalhas, apenas pequenos e fortes diálogos que dão força ao longa. No final, o diretor tenta criar cenas que poderiam ser marcantes, mas não funcionam muito bem. Se a caminhada de Lincoln, já quase no final do longa, poderia perfeitamente encerrar a projeção, somos levados  à reação da família quando recebe a notícia de sua morte e aí tudo parece exagerado e melodramático.


É digno vermos Spielberg arriscar em uma linguagem diferente, mas aqui há diálogos em demasia, personagens em demasia, cenas demasiadamente escuras e articulações políticas demais. Tudo isso, apesar de funcionar para a proposta do diretor, cansa absurdamente. Há grandes acertos em não mostrar Lincoln como o herói da nação, já que isso vem subentendido, mas esses excessos já citados acabam por deixar o filme um tanto quanto sem impacto. Spielberg tentou fazer um grande filme sem precisar de grandes cenas para isso, mas acabou criando uma obra em que mais vale a pena suas grandes atuações do que a história propriamente contada.

Indicações

Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Ator ( Daniel Day-Lewis)
Melhor Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)
Melhor Atriz Coadjuvante (Sally Field)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Fotografia
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora
Melhor Mixagem de Som
Melhor Figurino
Melhor Design de Produção