sábado, 16 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "A Hora Mais Escura"


11 de setembro de 2001. Tela preta, áudio de pessoas gritando, alguém não consegue respirar, uma rádio informa que dois aviões chocaram-se com o World Trade Center. Um pedido de ajuda. Silêncio. Dois anos depois, em 2003, vemos agentes da CIA torturando alguém envolvido com a Al-Qaeda, grupo terrorista responsável pelo ataque, para conseguir informações que os levem até Osama Bin Laden.

Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso, ela participa da operação de levou militares americanos a invadir o território paquistanês.

É esse clima tenso e desesperador que predomina durante os 157 minutos do novo filme dirigido por Kathryn Bigelow, dois anos após seu "Guerra ao Terror" vencer o Oscar de melhor filme. Mas se naquele filme Bigelow mostrou americanos arriscando a vida para desarmar bombas, aqui é necessário ter mais reflexão própria e levantar seus próprios questionamentos, já que "A Hora Mais Escura" é extremamente objetivo, como uma notícia jornalística, um relato dos fatos que depende muito mais do espectador do que das cenas. As torturas mostradas na tela não são defendidas, nem tampouco julgadas. As ações dos personagens são extremamente naturais, com uma normalidade incômoda. Toda a estratégia é crua, lenta, cheia de erros. Sai a CIA com suas mega operações e entram em cena vários tiros no escuro, inocentes morrendo por um erro de cálculo, erros humanos, atentados contra americanos acontecendo por falhas na inteligência do país. Bigelow avisa, logo no começo do longa, que o filme é baseado no relato inédito dos eventos reais que levaram ao assassinato de Osama Bin Laden. Quase em tom documental, o roteiro de Mark Boal nos leva para a complexa operação que demorou muito tempo para ter sua conclusão.


Para lembrarmos que "A Hora Mais Escura" trata-se de uma obra de ficção, vemos a excelente construção da protagonista Maya. A atuação de Jessica Chastain é cuidadosa e detalhista, assim como a direção de Bigelow. Chastain mostra sua frieza desde o início, mas pequenos gestos, olhares e tom de voz entregam a mistura de seus sentimentos que não são exteriorizados. Maya é obcecada, não tem vida pessoal, não tem família nem amigos. Ela é seca, assim como as ações do filme. Não há cenas que indiquem um alívio da tensão. É curioso perceber que Maya é uma estrategista, observadora, não um soldado no campo de batalha. Não a vemos em ação, apenas acompanhamos como a guerra é tratada atrás das mesas dos escritórios da inteligência americana. Sua paranoia mostra-se completamente necessária, já que nem mesmo o governo acreditava que o terrorista pudesse ser encontrado. O extenso e excelente elenco só ajuda a dar mais qualidade ao longa, especialmente Kyle Chandler ("Friday Night Lights") e James Gandolfini ("Família Soprano").

Metade da ação se passa dentro da CIA. Vemos que o funcionamento e ação, na verdade, estão nas mãos de poucos, sem nenhum glamour ou facilidade. Há muita burocracia, rotinas, níveis de autoridade absurdos e muitos empecilhos que dificultam o trabalho. É assim que vemos Maya agir. E é assim que a diretora nos insere em um momento histórico para o mundo.


"A hora mais escura" é um termo usado pelas forças armadas dos EUA para se referir a uma hora não especificada da madrugada em que o céu ainda está todo escuro. A sequência final em que assistimos pelo recorte de realidade de Bigelow como foi a operação para matar Bin Laden é construída com uma intensa e constante tensão, auxiliada pela fotografia escura, cenas verdes da visão noturna e a trilha sonora eficiente. Aqui, Bigelow não mostra mais nada além da invasão na casa onde estava o terrorista. As avaliações sobre a ação dos personagens fica por conta do espectador.

Embora Bigelow tenha feito uma obra sem críticas ou justificativas e que este seja melhor que seu filme antecessor, dificilmente ela levará uma estatueta para casa, já que mostrar americanos torturando pessoas não foi bem visto pelos conservadores e não é exatamente um filme de guerra hollywoodiano. Oa EUA saem vitoriosos, mas o gosto final acaba sendo agridoce. O roteiro não faz questão de exaltar o patriotismo americano, apenas remonta fatos históricos, deixando que Bigelow entregue de forma brilhante uma aula de história moderna e o melhor filme da sua carreira.

Indicações

Melhor filme
Melhor atriz (Jessica Chastain)
Melhor roteiro original
Melhor montagem
Melhor edição de som

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