O drama prevalece entre os indicados ao Oscar 2013. Temos o amor de dois velhinhos que precisam reaprender a conviver novamente após um problema de saúde; temos duas histórias sobre escravidão; uma história sobre o terrorismo; o épico sobre pessoas miseráveis que sofrem e cantam suas angústias. Logo, é gratificante assistir a uma história tão triste como a de "Indomável Sonhadora" pelos olhos de uma criança que consegue enxergar beleza na miséria e sofrimento daquele cenário.
Dirigido por Behn Zeitlin e baseado na peça teatral de Lucy Alibar, o longa mostra uma realidade não muito retratada pelo cinema americano. "Indomável Sonhadora" conta a história de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma menina de apenas 6 anos que vive em uma comunidade miserável chamada A Banheira, que recebe esse nome por ser uma ilha no meio de uma barragem. Ela está correndo o risco de ficar órfã, já que seu pai, Wink (Dwight Henry), está muito doente. Ele, por sua vez, se recusa a procurar ajuda e teima em não sair do local, que é considerado inabitável pelo governo. Um dia, pai e filha precisam lidar com as consequências trazidas por uma forte tempestade, que inunda toda a comunidade. Vivendo em um barco, eles encontram alguns amigos que os ajudam.
Nesse cenário desolador, os moradores de A Banheira se sentem livres e desprezam qualquer ajuda que possa vir de fora, já que isso implica em tirá-los do local, mesmo que vivam em constante tensão. A ilha é um amontoado de lixo, a bebida predomina, não existem médicos, não há escolas e a locomoção é feita por barcos. É nesse cenário que acompanhamos o difícil dia a dia dos moradores, com um ritmo lento e reflexivo. Aliás, o diretor alcança seu propósito ao nos dizer que, apesar da história parecer fantasiosa aos olhos da pequena Hushpuppy, o que acontece ali é real. Para isso, Zeitlin trabalha com um certo tom documental, a sujeira se destaca em todos os cantos, a câmera na mão (filmada em 16 mm) tem sempre movimentos bruscos, ângulos belíssimos e uma fotografia cheia de luz. É a esperança no meio da escuridão. E por mais que a trilha sonora nos leve a uma atmosfera um tanto quanto mágica e que a luz confira leveza ao longa, sempre voltamos para a miséria e urgência daquele povo. As moradias completamente vulneráveis, a segmentação de boa parte da sociedade e a teimosia de pessoas que preferem arriscar a própria vida do que sair de suas casas acabam gerando identificação, já que esse tipo de problema pode ser encontrado em muito países.
Ao longo do filme, vemos a estratégia do pai de Hushpuppy em treiná-la para não sentir medo, não chorar e, principalmente, sobreviver. O trabalho de direção com os atores confere mais realidade ao longa e o roteiro conduz a narrativa de uma forma que, mesmo que sem muitas surpresas, não o torna um filme chato. Mas é a pequena Quvenzhané Wallis a responsável por todo o encantamento visto na obra. Sendo a atriz mais nova a ser indicada ao Oscar até hoje (na época em que o filme foi gravado ela tinha 6 anos), Wallis merece todos os elogios que vem recebendo, principalmente o de ser uma "força da natureza", já que a pequena carrega uma dramaticidade incomum para crianças de sua idade.
"Indomável Sonhadora" se destaca mesmo quando evidencia as fantasias de sua protagonista. É encantador sermos embalados pelos sonhos da menina ou por quando ela imagina grandes animais pré-históricos, fazendo uma analogia com seu medo e o que precisa enfrentar. Quando focam apenas na crua realidade daquela comunidade, temos a sensação de dejá vu de filmes catástrofe. Por mais que não seja tão marcante como dizem, é uma experiência interessantes vermos uma vida vulnerável pelos olhos de uma criança que não para de sonhar.
Indicações
Melhor filme
Melhor diretor
Melhor atriz (Quvenzhané Wallis)
Melhor roteiro adaptado


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