"Lincoln" poderia ser um grande filme, e apenas não é por opção do seu próprio diretor, Steven Spielberg. Na verdade, a obra até pode ser considerada um grande filme sobre um dos presidentes mais importantes dos EUA, mas sua execução por muitas vezes torna-se enfadonha e cansativa. Spielberg decidiu tirar as grandes cenas e focar nos bastidores e diálogos de um determinado -- e importantíssimo -- período histórico americano.
"Lincoln" é centrado nos últimos quatro meses de vida do 16º presidente dos Estados Unidos, que entrou para a história por ter sido o responsável pela emenda constitucional que acabou com a escravidão daquele país e que, consequentemente, deu fim à Guerra Civil. Com esse tema, o longa pode ser considerado feito para a Academia, correto e com todas as chances de ganhar o prêmio máximo. Mas estamos em 2013 e essas pequenas fórmulas não são tão fáceis assim. Líder de indicações ao Oscar -- foram 12 -- dificilmente Spielberg sai vitorioso. Aliás, a única certeza que se pode ter é que Daniel Day-Lewis levará o prêmio de melhor ator, já que sua atuação é riquíssima. Seu presidente é cheio de nuances, sempre com um tom de voz que faz seu personagem ser doce, porém determinado; seu andar é pesado, sua postura é baixa, seu olhar é cansado. Os 4 anos de governo e de guerra são transmitidos ao público de uma forma magnífica. Tommy Lee Jones mostra sua habitual perfeita atuação. O mesmo pode-se dizer de Sally Field, apesar de que esta última fica sempre na linha tênue entre uma grande interpretação e um exagero.
A direção de arte constrói uma América do século 19 elogiável. A ambientação da época é impecável. A iluminação é baixa, a principal fonte de luz vem das janelas e a iluminação mais forte cai, claro, sobre o presidente, em um recurso nada sutil. Aliás, muitas das cenas parecem ser uma peça de teatro. Aqui, mesmo a escolha de Spielberg em não endeusar o presidente, todas as vezes em que ele aparece, surge de uma forma grandiosa, sempre sendo ouvido e com histórias -- muitas histórias -- para contar. A trilha de John Williams parece servir para situar o público quando a cena é dramática e quando tem um tom cômico.

O ponto mais interessante da obra é o dilema moral que Spielberg propõe. Em uma época em que o presidente era amado por todos, ele resolve mudar a Constituição e acabar com a escravidão. Somos mergulhados nos bastidores dessa batalha política e ética, já que vemos a equipe e o próprio Lincoln comprando votos da oposição, oferecendo empregos públicos com altos cargos e ficando em dúvida se acabaria com a guerra imediatamente ou estenderia-a apenas para alcançar seus propósitos. É assim que Spielberg consegue humanizar a figura do presidente, mostrando dilemas críticos e controversos em uma pessoa tão importante para a nação americana. E não é surpresa vermos sua equipe de governo corrompendo o sistema para conseguir o que desejam. É claro que em se tratando do fim da escravidão, nada disso soa estranho. Ainda, Spielberg mostra um pouco do dia a dia de Lincoln, sua relação com a esposa e com os filhos. Não há cenas de batalhas, apenas pequenos e fortes diálogos que dão força ao longa. No final, o diretor tenta criar cenas que poderiam ser marcantes, mas não funcionam muito bem. Se a caminhada de Lincoln, já quase no final do longa, poderia perfeitamente encerrar a projeção, somos levados à reação da família quando recebe a notícia de sua morte e aí tudo parece exagerado e melodramático.
É digno vermos Spielberg arriscar em uma linguagem diferente, mas aqui há diálogos em demasia, personagens em demasia, cenas demasiadamente escuras e articulações políticas demais. Tudo isso, apesar de funcionar para a proposta do diretor, cansa absurdamente. Há grandes acertos em não mostrar Lincoln como o herói da nação, já que isso vem subentendido, mas esses excessos já citados acabam por deixar o filme um tanto quanto sem impacto. Spielberg tentou fazer um grande filme sem precisar de grandes cenas para isso, mas acabou criando uma obra em que mais vale a pena suas grandes atuações do que a história propriamente contada.
Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Ator ( Daniel Day-Lewis)
Melhor Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)
Melhor Atriz Coadjuvante (Sally Field)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Fotografia
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora
Melhor Mixagem de Som
Melhor Figurino
Melhor Design de Produção


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