Ang Lee parece não gostar de dirigir obras comuns e é tentado por desafios. Adaptou o super-herói "Hulk", fez um trabalho sobre tensão sexual em "Desejo e Perigo", mostrou ao mundo a história de um amor homossexual proibido em "O Segredo de Brokeback Mountain" e realizou um espetáculo com "O Tigre e o Dragão". Em "As Aventuras de Pi", Lee usou o melhor da tecnologia para contar uma história considerada inadaptável para o audiovisual e criando uma experiência visual incrível.
O longa, baseado no livro de Yann Martel (que ultimamente precisa responder a questões sobre um possível plágio de um autor brasileiro) conta a história de Pi Patel (Suraj Sharma), filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro em que todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um macaco, uma hiena e um tigre-de-bengala chamado Richard Parker. Em um filme em que os efeitos especiais são importantíssimos para a narrativa, Lee faz um trabalho memorável para o cinema, assim como Scorcese fez ano passado com "Hugo Cabret". A direção de Lee é tão competente que consegue emocionar com a relação do menino e o tigre, que é criado totalmente por computação gráfica e em nenhum momento parece ser falso.
A partir da cena do naufrágio até a conclusão da obra, Lee e toda a equipe técnica faz um trabalho primoroso e riquíssimo em detalhes. A profundidade de campo garante uma imersão do público impressionante. Aqui, nós começamos a acreditar que peixes voam e que a situação retratada na tela realmente aconteceu. Lee nos proporciona uma viagem e uma reflexão capaz de marcar por muito tempo na memória das pessoas.
Há um forte lado religioso que permeia todo o longa. Mesmo que Lee tenha o cuidado de não pregar as diversas religiões do protagonista, é curioso perceber que o personagem entende que todos os desafios enfrentados são uma espécie de teste de sua fé. Lee até coloca no pai de Pi a voz que questiona a fé cega, mas o excesso do politicamente correto chega a incomodar em certo ponto. Pi, mesmo que à beira da morte, não questiona em nenhum momento sua fé em Deus. Talvez isso seja o papel do público, já que somos levados à reflexão e os acontecimentos podem ser considerados grandes metáforas. Sua relação com Deus pode ser discutida por todos, assim como a relação homem-animal, que parece ser o principal mote do filme.
O grande mérito de Lee foi criar um filme extremamente rico, discutindo a vida de maneira fácil por meio da relação com um animal e um garoto em um barco. As questões levantadas nos fazem refletir sobre nossas experiências e sentimentos. Tem lá suas falhas, como um começo demasiadamente cheio de informações e uma demora para engrenar, mas quando acontece, constrói um mundo muito fácil de ser acreditado e nos lembra que cinema é, principalmente, uma arte capaz de trazer reflexão.
Indicações
Melhor filme
Melhor diretor
Melhor roteiro adaptado
Melhor fotografia
Melhor edição
Melhor trilha sonora original
Melhor canção original
Melhores efeitos visuais
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som
Melhor design de produção


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