terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "Argo"


Quem diria que o favorito a ganhar o Oscar de melhor filme seja Ben Affleck e que mesmo a Academia ignorando-o na direção, "Argo" tem a força necessária para deixar seus concorrentes seriamente preocupados. "Argo" vem ganhando todos os prêmios por onde passa, além de marcar Affleck na lista dos diretores mais promissores do cinema e mostrando que um bom filme pode ser feito apenas com ótimas atuações e um roteiro redondo, mesmo que isso venha permeado por alguns exageros que não comprometem em nada sua obra.

Em seu terceiro filme como diretor, Affleck leva às telas a "melhor má ideia" que alguém poderia ter: em 1979, durante a crise política iraniana, Tony Mendez (Ben Affleck), especialista em exfiltração, é recrutado pela CIA para resgatar seis americanos, refugiados na casa do embaixador canadense em Teerã. Para a missão, Mendez e um maquiador de Hollywood criam um falso filme para tentar tirá-los do país.

O roteiro de Chris Terrio e Joshua Bearman é minucioso. Para quem conhece a história, mergulhar nos bastidores de uma trama tão absurda como esta torna-se uma experiência gratificante. Para quem não conhece, há a oportunidade de entender como esse período foi importante para as relações entre o Irã e os Estados Unidos, sem nunca cair no didatismo barato (a explicação no início do longa é excelente) e sem perder a característica de entretenimento, já que a excelente direção de Affleck cria um thriller capaz de deixar muita gente roendo as unhas.

Affleck entende que a trama é difícil de ser engolida e dizer que a história é baseada em fatos reais não é o suficiente. Então, o diretor faz questão de mostrar fotos dos personagens e reportagens da época durante os créditos finais, além de colocar várias cenas reais durante o filme, o que mostra um trabalho cuidadoso e uma pesquisa profunda sobre os fatos mostrados. Affleck é tão feliz em suas escolhas que decide mostrar um filme dentro de um filme, usando de maneira brilhante os recursos de metalinguagem. Para passar a ideia de quem eles realmente estavam produzindo um longa-metragem, toda a equipe deveria se empenhar para que os iranianos acreditassem que um filme de ficção científica muito parecido com "Star Wars" realmente sairia do papel. Nessa hora, Alleck nos mostra muito da forma de se produzir filmes hollywoodianos e decide alfinetar a indústria cinematográfica, mostrando seus vícios e seu pensamento em relação ao público. Além disso, o diretor usa, sim, o patriotismo americano para contar sua história, mas deixa que o público reflita sobre as ações do Irã, evidenciando que elas não foram assim tão incompreensíveis. A direção de arte é impecável, desde suas roupas até os cenários do início dos anos 80, assim como a fotografia, que alterna os momentos tensos do Irã com o tom cômico de Hollywood. A dificuldade na forma de comunicação é mostrada com brilhantismo, já que em uma época em que celulares não existiam, tudo era mais complicado quando precisava-se de um telefonema urgente. A inteligente trilha sonora cumpre a função de deixar o público tenso, sempre na hora certa.

Com um elenco muito bem selecionado, Affleck dirige com maestria cada um deles, e muitos são rostos conhecidos da televisão, como Tate Donovan ("Damages"), Kyle Chandler ("Friday Night Lights") e Richard Kind ("Mad About You"). Entre os destaques estão John Goodman e Alan Kirk, que conferem leveza ao longa. Bryan Cranston (da série "Breaking Bad") brilha em todas as cenas, mostrando seu excelente trabalho não apenas na televisão. Affleck não é lá muito bom ator, mas não decepciona e entrega seu melhor trabalho frente às câmeras.

Affleck segura firme todas as ações, nunca deixando o longa maçante. Tudo está ali, desde a apresentação dos personagens, os conflitos iniciais, os problemas durante o caminho, o clímax e a resolução. O roteiro é fechado e alcança seu propósito de mostrar uma história que foi  escondida por tanto tempo. Algumas falhas pontuam o longa, como a vida pessoal de Tony Mendez, que não convence e não acrescenta nada à narrativa, bem como os recursos para aumentar o clímax, bem no final da projeção, que só servem para criar uma tensão que já havia sido construída muito bem, o que deixa a conclusão um pouco exagerada. Mas, felizmente, o filme entrega tantos bons momentos que tudo isso torna-se perdoável. Se nos outros filmes indicados ao Oscar há o problema de ser demasiadamente longo, com cenas que poderiam ser cortadas sem dó, "Argo" consegue transmitir uma experiência na medida certa, contando uma história interessante sem precisar de explosões ou várias reviravoltas desnecessárias, entretendo o público com reflexão e mostrando que Affleck está no caminho certo, independente do que os membros da Academia pensam.

Indicações

Melhor filme
Melhor ator coadjuvante (Alan Kirk)
Melhor roteiro adaptado
Melhor edição
Melhor trilha sonora original
Melhor edição de som
Melhor mixagem de som

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