terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Maratona Oscar: Tão Forte e Tão Perto

Stephen Daldry realizou trabalhos primorosos ao longo de sua carreira, como "Billy Eliot", "As Horas" e "O Leitor", todos levando alguma indicação em todos os prêmios relacionados ao cinema. Ou seja, foi com muita curiosidade que fui assistir ao mais novo longa do diretor. Infelizmente, é sua obra mais fraca.

Aos 11 anos de idade, Oskar Schell é uma criança excepcional: inventor amador, admirador da cultura francesa, pacifista. Depois de encontrar uma misteriosa chave que pertencia a seu pai, que morreu nos atentados ao World Trade Center, no 11/09, ele entra em uma urgente e secreta busca por um segredo pelas cinco regiões de Nova York. Enquanto Oskar vaga pela cidade, ele encontra pessoas de topos os tipos, todos sobreviventes em seus próprios caminhos. 

Baseado no livro homônimo de Jonathan Safran Foer, o longa mostra bem o sentimento de perda de um ente querido. Sempre intimista, Daldry não apela para dramas escancarados, mas deixa que a sensação passe para o público, que o interpreta da forma que sentir.  Ao mesmo tempo, esse drama não consegue alcançar seu objetivo, já que o protagonista - vivido pelo estreante e supreendente Thomas Horn - se mostra irritante em diversas partes. Entendemos seu drama e sua síndrome do pânico, mas muitas vezes o garoto maltrata pessoas gratuitamente e suas atitudes não convecem muito. Não fosse sua impressionante atuação, o garoto poderia ganhar a antipatia completa. Mas, se lá pelo meio da história começamos a cansar, entra em cena Max von Sydow - indicado à Melhor Ator Coadjuvante -, idoso simpático que sem dizer uma palavra, consegue ganhar a confiança do menino e o ajuda em sua busca. A personagem dosa perfeitamente a emoção e o alívio cômico. Sandra Bullock e Tom Hanks aparecem pouco, mas estão bem nos lugares que os competem.

O tema 11 de setembro já foi usado algumas vezes no cinema e acaba sendo lugar comum. Porém, o diretor consegue deixar o fato como pano de fundo, apenas para ilustrar e contar uma história de perda e aceitação, deixando em destaque a imprevisibilidade e a falta de sentido da vida. Um acerto que vem com um erro, já que a procura de Oskar chega na beira da emoção, mas volta com um anticlímax. Se Daldry acerta em mostrar a paranóia americana aos olhos de uma criança, erra em deixar todas as pessoas envolvidas no processo como se fossem peças indispensáveis. O garoto parece encontrar histórias incríveis, mas não somos apresentados a nenhuma delas. Diversas cenas aleatórias são  jogadas na tela, mas voltam ao mundo particular de Oskar. 

"Tão Forte e Tão Perto" exige uma sensibilidade apurada, mas talvez essa emoção tenha sido apenas uma ideia interessante com uma execução ruim.

Oscar - Indicações

Melhor Filme
Melhor Ator Coadjuvante  

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Maratona Oscar: A Invenção de Hugo Cabret

Quando vi o trailer e alguns comentários sobre "Hugo", tive a mesma impressão que a maioria: basta um diretor conceituado tomar a frente de um filme - seja ele infantil ou não - que a academia logo dá mais atenção, pelo menos o colocando em alguma categoria do Oscar. Digo isso porque em 11 anos, a saga "Harry Potter" sempre saiu de mãos vazias da premiação, sendo indicada apenas à prêmios técnicos. Logo, a história sobre um menino órfão que mora numa estação de trem em que tudo parece meio mágico, vive se escondendo para não ir para o orfantato e é perseguido por um inspetor malvado, me parecia bem inferior - e um tanto injusto - ao menino bruxo que morava com os tios implicantes num armário sob a escada. Ledo engano. "A Invenção de Hugo Cabret" é uma grande homenagem ao cinema.

Dirigido por Martin Scorsese e baseado na obra de Brian Selznick, "Hugo" mostra a vida de um garoto (Asa Butterfield, o mesmo inexpressivo de "O menino do pijama listrado") na Paris de 1930. Ele vive escondido nas paredes da estação de trem e guarda consigo um robô quebrado, deixado por seu pai (Jude Law). Um dia, ao fugir do inspetor (Sacha Baron Cohen), ele conhece Isabelle (Chloe Moretz), uma jovem com quem faz amizade. Logo Hugo descobre que ela tem uma chave com o fecho em forma de coração, exatamente do mesmo tamanho da fechadura existente no robô, que volta a funcionar, levando a dupla a tentar resolver um mistério mágico.

O filme tem pretensão. Não é apenas um blockbuster nem utiliza os efeitos em 3D para tapar um roteiro fraco. "Hugo" filosofa sobre o tempo, usa de metáforas mostrando as engrenagens dos relógios e utiliza da magia - não aquelas sobrenaturais sem explicação - para contar uma realidade. Seus recursos gráficos estão presentes em toda a projeção e, talvez, seja o filme que os utilizou de forma mais inteligente e com ritmo. O uso de metalinguagem compõe boa parte do longa, mostrando como se faz cinema. Ou se fazia.

O grande mérito - e alma - do filme está justamente no retorno ao que o cinema representava. Fábrica de sonhos, escape da realidade, olhares admirados. Está tudo ali, o velho e bom cinema escapista. O título do filme leva o nome de Hugo Cabret, mas poderia ser George Méliès (1861–1938), grande cineasta dos anos 30. Scorsese faz uma grande homenagem à Méliès, reproduzindo alguns de seus filmes e contando (quase) toda sua história. 

Mas nem só de elogios o filme se sustenta. Com duas horas de duração, algumas cenas enchem os olhos, mas são longas demais e apenas adiam algo que o público já sabe o que vai acontecer. O longa demora a engrenar e se torna cansativo. Ao mesmo tempo, a escolha do elenco se mostra acertada.  Chloe Moretz - que interpreta a afilhada de Méliès - rouba a cena de Asa Butterfield, que apresentou uma melhora, mas continua com a mesma inexpressividade já vista em "O menino do pijama listrado". Pra quem tem saudades de "Harry Potter", estão presentes Richard Griffths - o Tio Váter - e Frances de la Tour, a Madame Maxine. Já o ótimo Sacha Baron Cohen traz alívio cômico necessário. O único problema é que todas essas atuações ofuscam o tal Hugo.

 "Hugo" dificilmente leva o prêmio de Melhor Filme, mas pode sair com várias estatuetas. Com 11 indicações, Scorsese realiza sua obra mais doce e nostálgica de todas, mostrando que, muitas vezes, o passado sempre será melhor que o presente.

Oscar - Indicações

Melhor Filme
Melhor Direção de Arte
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Direção
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora

Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som
Melhor Efeitos Especiais
Melhor Roteiro Adaptado

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Maratona Oscar: "Histórias Cruzadas"

A Academia parece ter entendido que não é necessário uma super produção com efeitos especiais gigantescos para se fazer um bom filme. Belíssimas atuações, uma direção segura e um roteiro bem escrito já faz o cinema agradecer. "Histórias Cruzadas" ("The Help") é a perfeita expressão do feel good movie.

Mississipi, década de 1960. Skeeter (Emma Stone) acabou de terminar a faculdade e sonha em ser escritora. Ela põe a cidade de cabeça para baixo quando decide pesquisar e entrevistar mulheres negras que sempre cuidaram das "famílias do sul", a elite branca. Apesar da confusão causada, Skeeter consegue o apoio de Aibileen (Viola Davis, impecável), governanta de um amigo, que conquista a confiança de outras mulheres que têm muito o que contar.

Dirigido por Tate Taylor ("Inverno na Alma") e baseado no romance The Help, de Kathryn Stockett, o longa conta a história do racismo tendo como pano de fundo alguns acontecimentos históricos, como a morte do primeiro Kennedy e o assassinato de Martin Luther King, mas os fatos são apenas citados, não deixando nunca de contar a história das negras (sim, mulheres) de forma crua - e até um pouco forçada - numa época em que os direitos civis estavam começando a dar sinais de revolução. E quando digo que algumas cenas são forçadas, não quero dizer que não sejam verdadeiras, mas em diversos momentos temos o leve incomodo de que armadilhas estão sendo postas no caminho do público para que este derrube algumas lágrimas. Porém, isso não desmerece a qualidade do filme.

Mas "Histórias Cruzadas", apesar do seu bom roteiro, se firma mesmo nas atuações e seu elenco primoroso. Viola Davis é a responsável pelo brilho do longa, interpretando Aibileen. Favorita para o Oscar de Melhor Atriz, Davis dá um show em todas as suas cenas, seja nos diálogos ou no olhar. É atuação para se aplaudir de pé. Já as codjuvantes não ficam atrás. Octavia Spencer tem a oportunidade de provar seu talento, já que em outros filmes nunca ganhou muito destaque; Jessica Chastain - linda, como sempre - é o alívio cômico da história e está tão boa quanto em "A Árvore da Vida" e Bryce Dallas Howard constrói belissimamente a personagem mais odiosa da trama.

O que vemos na tela é o racismo numa cidadezinha no sul dos EUA sendo escancarado em nossa frente. Ao longo da história, vemos a supremacia das mulheres brancas - e o filme é sobre as mulheres, deixando os homens aparecendo pontualmente - sobre as negras, todas empregadas domésticas passando de geração em geração. Vemos as patroas construírem banheiros separados, afinal, "eles tem doenças diferentes das nossas". Assistimos as empregadas criarem os filhos de suas patroas, para que depois essas crianças se tornem tão preconceituosas quanto as mães. E vemos, também, uma mulher horrorizada com o que ocorre naquela cidade. Sendo assim, o longa é muito parecido com "A Cor Púrpura"  e "Tomates Verdes Fritos". O filme entrega vários eventos isolados para suavizar a história que está sendo contada. De um lado, perde-se um pouco a força dramática. Do outro, o que vemos são histórias intimistas sendo contadas, sem a necessidade de chocar, mas de refletir e mostrar a realidade de uma sociedade.

É um filme capaz de criar uma discussão sobre cinema e outra sobre a sociedade. Do ponto de vista cinematográfico, é uma boa obra que se sustenta mais nas atuações do que no roteiro. Do ponto de vista social, é imprescindível lembrar que, por mais absurdo e chocante que seja, ainda existem muitas pessoas iguais aquelas senhoras, que escondem com um sorriso um preconceito enraizado.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Maratona Oscar: "A Árvore da Vida"

O diretor Terrence Malick é recluso. Demora anos para realizar um novo filme e sempre utiliza de cunho religioso. Entre "Cinzas do Paraíso" (1978) e "Além da Linha Vermelha" (1998) houve um intervalo de 20 anos. Malick filma sem pressa, escolhendo cuidadosamente suas cenas e que sejam reflexivas. "A Árvore da Vida" - vencedor da Palma de Ouro, em Cannes - pode ser considerada a obra mais filosófica de todas. E mesmo com a polêmica de que o filme não tem uma profundidade tão grande como se pensa, é um experimento gratificante para, assim que os créditos apareçam, começar a pensar no que estamos fazendo nesse mundo e o que é a vida.

Com mais de duas horas de duração, o longa gira em torno do casal O’Brien e seus três filhos. Jack (Sean Penn) é o irmão mais velho e no começo da trama está vivendo uma feliz e inocente infância com seus 11 anos. Tudo muda quando um dos irmãos morre e a família entra em desespero. A história passa então a mostrar a transformação do garoto Jack em um adulto perdido no mundo moderno e em constante busca pelo sentido da vida. Dizendo assim, parece que a narrativa segue linearmente, mas o que vemos são fragmentos de memórias das personagens, ás vezes sem relação nenhuma com algum fato. Somos mergulhados nas questões mais profundas do ser humano. Sem respostas fáceis, Malick entrega as perguntas para que preenchamos o que vemos na tela.

Como aceitar a existência de Deus? Como acreditar sem questionar os fatos da vida? Em alguns dos poucos diálogos que o filme apresenta, seus pesonagens indagam "por que é que o Senhor fez isso?" "ele era apenas uma criança. Ia acontecer alguma coisa?" e perguntas - feitas por todos nós ao longo da vida - adquirem uma forma extremamente profunda quando citam Jó, explicando que não se deve esperar apenas coisas positivas vindas de Deus. Mas não se deve pensar que a obra é para fanáticos religiosos ou ateus. Essas perguntas são jogadas no decorrer da projeção sem bater o martelo sobre os motivos. Os personagens são humanos e, como tal, não entendem porque, se realmente existe algo superior, coisas terríveis acontecem. A falta de diálogos se torna mais do que necessária. O silêncio presente em quase toda a parte da trama não incomoda, já que não entrega soluções simples em nenhum momento. Malick mostra de uma forma impressionante (e aqui é necessário que se veja o filme com uma qualidade de imagem realmente boa) o surgimento do universo, desde o Big Bang até os dinossauros na terra. A sequência com cerca de 20 minutos enche os olhos e a trilha sonora é de perder o fôlego. 


Se há algo que se possa falar de concreto na história, esta é a autoridade paternalista. Em uma época que remete aos anos 50, Malick mostra o conflito da família O'Brien e suas atitudes comuns para a época. A Mãe (Jessica Chastain) e o Pai (Brad Pitt) são um casal comum vivendo num subúrbio americano com seu três filhos. O mais velho, Jack (em uma atuação impressionante de Hunter McCracken e mais tarde por Sean Penn, em brevíssimas aparições) sofre o peso de ser o primogênito. O Pai mostra toda a severidade de uma criação rígida, mas sem nunca esconder o afeto que tem pelos filhos. Brat Pitt - impecável - consegue mostrar que, apesar de querer preparar os filhos para serem vencedores sem fraquejar, não esconde um amor palpável. Em contraponto, a Mãe entrega um amor quase celestial. Sempre aparecendo em cenários iluminados, a personagem é o exemplo puro de uma relação maternal e não nos surpreendemos quando vemos Jack nutrir um ódio pelo pai. Em vários momentos, o menino pede à Deus que o mate. Em uma das cenas, pergunta à mãe por quê o pai nasceu. É nesse momento que vemos Jack flertar com o mal, para depois vermos o arrepedimento de seus sentimentos e é interessante perceber (e identificar) como fatos da infância refletem na vida adulta.


Nenhuma cena é desperdiçada, por mais que não se construa uma linha narrativa sólida. A trilha sonora de Alexandre Desplat desperta sentimentos incríveis e mostra - mais uma vez - a importância para o cinema. Além da trilha original, somos presenteados com os complementos de Bach, Brahms, Mahler e Berlioz. A cena em que o Pai acompanha o nascimento do filho ao tocar o seu minúsculo pé carrega um força dramática incrível, mesmo que dure poucos segundos. A câmera - sempre baixa quando acompanhamos as crianças - dá a impressão de vermos a visão dos garotos ao mundo.

"A Árvore da Vida" é cinema de sensibilidade. Para alguns, será uma experiência extremamente chata. Para outros, a reflexão feita por Malick causa um impacto capaz de durar vários dias após assistir. É um filme sobre a existência humana em sua essência mais crua. É um filme sobre simbolismos. É um filme sobre caminhos da vida. A mensagem de que "viver sem amor não faz sentido" não poderia ser mais clara. É uma obra de interpretações próprias, com cada um carregando o seu próprio repertório ao longo de sua existência. Acima de tudo, é uma experiência sensorial incrível. O cinema agradece.

Oscar - Indicações

Melhor Filme
Melhor Direção
Melhor Fotografia