quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Maratona Oscar: "A Árvore da Vida"

O diretor Terrence Malick é recluso. Demora anos para realizar um novo filme e sempre utiliza de cunho religioso. Entre "Cinzas do Paraíso" (1978) e "Além da Linha Vermelha" (1998) houve um intervalo de 20 anos. Malick filma sem pressa, escolhendo cuidadosamente suas cenas e que sejam reflexivas. "A Árvore da Vida" - vencedor da Palma de Ouro, em Cannes - pode ser considerada a obra mais filosófica de todas. E mesmo com a polêmica de que o filme não tem uma profundidade tão grande como se pensa, é um experimento gratificante para, assim que os créditos apareçam, começar a pensar no que estamos fazendo nesse mundo e o que é a vida.

Com mais de duas horas de duração, o longa gira em torno do casal O’Brien e seus três filhos. Jack (Sean Penn) é o irmão mais velho e no começo da trama está vivendo uma feliz e inocente infância com seus 11 anos. Tudo muda quando um dos irmãos morre e a família entra em desespero. A história passa então a mostrar a transformação do garoto Jack em um adulto perdido no mundo moderno e em constante busca pelo sentido da vida. Dizendo assim, parece que a narrativa segue linearmente, mas o que vemos são fragmentos de memórias das personagens, ás vezes sem relação nenhuma com algum fato. Somos mergulhados nas questões mais profundas do ser humano. Sem respostas fáceis, Malick entrega as perguntas para que preenchamos o que vemos na tela.

Como aceitar a existência de Deus? Como acreditar sem questionar os fatos da vida? Em alguns dos poucos diálogos que o filme apresenta, seus pesonagens indagam "por que é que o Senhor fez isso?" "ele era apenas uma criança. Ia acontecer alguma coisa?" e perguntas - feitas por todos nós ao longo da vida - adquirem uma forma extremamente profunda quando citam Jó, explicando que não se deve esperar apenas coisas positivas vindas de Deus. Mas não se deve pensar que a obra é para fanáticos religiosos ou ateus. Essas perguntas são jogadas no decorrer da projeção sem bater o martelo sobre os motivos. Os personagens são humanos e, como tal, não entendem porque, se realmente existe algo superior, coisas terríveis acontecem. A falta de diálogos se torna mais do que necessária. O silêncio presente em quase toda a parte da trama não incomoda, já que não entrega soluções simples em nenhum momento. Malick mostra de uma forma impressionante (e aqui é necessário que se veja o filme com uma qualidade de imagem realmente boa) o surgimento do universo, desde o Big Bang até os dinossauros na terra. A sequência com cerca de 20 minutos enche os olhos e a trilha sonora é de perder o fôlego. 


Se há algo que se possa falar de concreto na história, esta é a autoridade paternalista. Em uma época que remete aos anos 50, Malick mostra o conflito da família O'Brien e suas atitudes comuns para a época. A Mãe (Jessica Chastain) e o Pai (Brad Pitt) são um casal comum vivendo num subúrbio americano com seu três filhos. O mais velho, Jack (em uma atuação impressionante de Hunter McCracken e mais tarde por Sean Penn, em brevíssimas aparições) sofre o peso de ser o primogênito. O Pai mostra toda a severidade de uma criação rígida, mas sem nunca esconder o afeto que tem pelos filhos. Brat Pitt - impecável - consegue mostrar que, apesar de querer preparar os filhos para serem vencedores sem fraquejar, não esconde um amor palpável. Em contraponto, a Mãe entrega um amor quase celestial. Sempre aparecendo em cenários iluminados, a personagem é o exemplo puro de uma relação maternal e não nos surpreendemos quando vemos Jack nutrir um ódio pelo pai. Em vários momentos, o menino pede à Deus que o mate. Em uma das cenas, pergunta à mãe por quê o pai nasceu. É nesse momento que vemos Jack flertar com o mal, para depois vermos o arrepedimento de seus sentimentos e é interessante perceber (e identificar) como fatos da infância refletem na vida adulta.


Nenhuma cena é desperdiçada, por mais que não se construa uma linha narrativa sólida. A trilha sonora de Alexandre Desplat desperta sentimentos incríveis e mostra - mais uma vez - a importância para o cinema. Além da trilha original, somos presenteados com os complementos de Bach, Brahms, Mahler e Berlioz. A cena em que o Pai acompanha o nascimento do filho ao tocar o seu minúsculo pé carrega um força dramática incrível, mesmo que dure poucos segundos. A câmera - sempre baixa quando acompanhamos as crianças - dá a impressão de vermos a visão dos garotos ao mundo.

"A Árvore da Vida" é cinema de sensibilidade. Para alguns, será uma experiência extremamente chata. Para outros, a reflexão feita por Malick causa um impacto capaz de durar vários dias após assistir. É um filme sobre a existência humana em sua essência mais crua. É um filme sobre simbolismos. É um filme sobre caminhos da vida. A mensagem de que "viver sem amor não faz sentido" não poderia ser mais clara. É uma obra de interpretações próprias, com cada um carregando o seu próprio repertório ao longo de sua existência. Acima de tudo, é uma experiência sensorial incrível. O cinema agradece.

Oscar - Indicações

Melhor Filme
Melhor Direção
Melhor Fotografia
 

Um comentário:

  1. Amei o filme, lindo demais. Fotografia, direção de arte, trilha sonora e interpretações. alguns questionamentos apresentados no filme são muito presentes em mim. Adorei seu texto. Não entendi muito sobre o filme, acredito não ter bagagem o suficiente para entender certos questionamentos e apontamentos mas sem dúvidas é uma obra e tanto!

    ResponderExcluir