terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Oscar 2013 - Crítica: "Os Miseráveis"


O enredo você já conhece ou ao menos já deve ter ouvido falar. O romance "Os Miseráveis" é uma das principais obras escritas pelo francês Victor Hugo, publicada em 1862.  A história se passa na França do século 19 entre duas grandes batalhas: Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832. São cinco volumes que contam a vida de Jean Valjean, um ex-prisioneiro perseguido há anos pelo malvado inspetor Javert. Anos depois, agora rico e com uma nova identidade, Valjean conhece Fantine, uma das ex-funcionárias de sua fábrica, que implora a ele que cuide de sua filha Cosette. O encontro entre os dois muda suas vidas para sempre.

Os temas retratados por Victor Hugo são sempre os conflitos de classe, o ultra-romantismo, o amor épico, a justiça, a lei, a verdade e por aí vai. Logo, o diretor Tom Hooper tinha o desafio de adaptar todos esses temas na tela. Aqui, vemos que ele escolheu o teatro como base e não a obra literária, o que se mostra uma decisão acertada. E é admirável a coragem de adaptar uma peça que já vendeu 60 milhões de ingressos em 42 países, peça que também já teve coragem de adaptar um livro tão longo e cheio de detalhes como "Os Miseráveis".

Para começar, Tom Hooper -- em seu primeiro trabalho após o vencedor do Oscar "O Discurso do Rei" -- fez algo louvável ao projetar situações que ficam limitadas no palco, como a real situação da França naquela época e o trabalho escravo. Outro grande acerto foi a escolha em não dublar as músicas que os atores interpretam. Todas as canções foram captadas no set, dando uma força dramática absurda em diversas cenas. A imperfeição das vozes deixa tudo mais real e permitiu que vários atores mostrassem seus talentos vocais, exceto Russel Crowe, que é surpreendentemente ruim cantando. Mas se todos estão bem, quem rouba o filme é Anne Heathaway e sua Fantine. A atriz consegue emocionar justamente por estarmos ouvindo toda a fragilidade de sua voz. Anne se doa completamente em cena, entendendo que sua personagem sofre o mundo. Não é de se espantar que o momento mais esperado da projeção seja o dela, e seu "I Dreamed a Dream", com uma voz misturando um choro contido e um grito, é impressionante. E esse parece ser o único momento realmente forte em que o público não consegue ficar inabalável. Sua vitória no Oscar é  quase garantida. 

Para os fãs de musicais, Hooper entrega um presente. Isso se quem for assistir ao longa não estiver esperando algo como "Moulin Rouge" ou "Chicago". O filme é quase inteiramente cantado. Se há diálogos, são uns 3 ou 4. São quase três horas de projeção com muita música e muito drama. E os problemas começam aqui.

É claro que as músicas são poderosas e funcionam, porém, a narrativa fica cansativa quando, em uma simples conversa, tudo é musicado e teatralizado. Situações banais viram músicas cheias de caras e bocas. Mesmo a adaptação vinda do teatro, não há como negar que existe um exagero. Aqui, temos um filme corrido, com uma edição confusa, personagens aparecem e somem sem que fiquem um tempo necessário na tela. Parece uma junção de episódios cantados que até enchem os olhos, mas que dão a sensação de que não serviram pra nada.


Hooper parece ter esquecido que o filme não possui atos como em uma peça de teatro. Essa rapidez e confusão exige que o público conheça um pouco da trama, já que as personagens não são tão desenvolvidas para que as pessoas se importem. Talvez, se Hooper não tivesse musicado tanto ou dividisse o filme em partes o resultado fosse melhor. Nós vemos a resolução de um conflito e, logo após, a trama pula 9 anos e tudo começa outra vez. E lá vem mais música.

Mas, tecnicamente, o filme é perfeito. Diversos planos lembram muito os de "O Discurso do Rei", com as personagens na lateral e um grande espaço ao lado. A fotografia carrega nas cores da bandeira da frança e a direção de arte é impecável, tanto nas locações quando nos figurinos e sonoplastia. Esteticamente, o trabalho é primoroso.

As atuações, como já esperado, são excelentes, embora, repito, Anne Hathaway roube qualquer brilho. Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter estão divertidíssimos com suas canções de aproveitadores. Amanda Seyfriend e Eddie Redmayne também estão ótimos, embora o roteiro não os favoreça, já que o amor dos dois não convence. Russel Crowe como cantor é um ótimo ator e segura bem o papel de vilão, sem nunca cair na antipatia.


"Os Miseráveis" gerou muita expectativa desde o seu primeiro trailer e por se tratar de uma obra tão importante. Não é um filme ruim, mas também não é nada marcante. Vale a pena vermos as histórias daquelas pessoas, as manifestações da época e os temas que Victor Hugo abordou. Hooper consegue mostrar com brilhantismo a esperança, os sonhos e a miséria humana. Porém, fica a impressão de que te prometeram um filme poderoso, mas te entregaram pequenos bons momentos, e que os outros demoram muito a passar.

Indicações:

Melhor filme
Melhor ator (Hugh Jackman)
Melhor atriz coadjuvante (Anne Hathaway)
Melhor canção original ("Suddenly")
Melhor maquiagem
Melhor figurino
Melhor direção de arte
Melhor mixagem de som


Um comentário:

  1. Sim, concordo com tudo!Também achei muita música.
    No final, quando agente acha que vai acabar, vem mais uma cena que não quer dizer quase nada e ainda com mais música!
    Tua última frase resume minha sensação, mas ainda assim, valeu a pena ter assistido!
    Beijo, Mari.

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