O enredo você já conhece ou ao menos já deve ter ouvido falar. O romance "Os Miseráveis" é uma das principais obras escritas pelo francês Victor Hugo, publicada em 1862. A história se passa na França do século 19 entre duas grandes batalhas: Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832. São cinco volumes que contam a vida de Jean Valjean, um ex-prisioneiro perseguido há anos pelo malvado inspetor Javert. Anos depois, agora rico e com uma nova identidade, Valjean conhece Fantine, uma das ex-funcionárias de sua fábrica, que implora a ele que cuide de sua filha Cosette. O encontro entre os dois muda suas vidas para sempre.
Os temas retratados por Victor Hugo são sempre os conflitos de classe, o ultra-romantismo, o amor épico, a justiça, a lei, a verdade e por aí vai. Logo, o diretor Tom Hooper tinha o desafio de adaptar todos esses temas na tela. Aqui, vemos que ele escolheu o teatro como base e não a obra literária, o que se mostra uma decisão acertada. E é admirável a coragem de adaptar uma peça que já vendeu 60 milhões de ingressos em 42 países, peça que também já teve coragem de adaptar um livro tão longo e cheio de detalhes como "Os Miseráveis".
Para começar, Tom Hooper -- em seu primeiro trabalho após o vencedor do Oscar "O Discurso do Rei" -- fez algo louvável ao projetar situações que ficam limitadas no palco, como a real situação da França naquela época e o trabalho escravo. Outro grande acerto foi a escolha em não dublar as músicas que os atores interpretam. Todas as canções foram captadas no set, dando uma força dramática absurda em diversas cenas. A imperfeição das vozes deixa tudo mais real e permitiu que vários atores mostrassem seus talentos vocais, exceto Russel Crowe, que é surpreendentemente ruim cantando. Mas se todos estão bem, quem rouba o filme é Anne Heathaway e sua Fantine. A atriz consegue emocionar justamente por estarmos ouvindo toda a fragilidade de sua voz. Anne se doa completamente em cena, entendendo que sua personagem sofre o mundo. Não é de se espantar que o momento mais esperado da projeção seja o dela, e seu "I Dreamed a Dream", com uma voz misturando um choro contido e um grito, é impressionante. E esse parece ser o único momento realmente forte em que o público não consegue ficar inabalável. Sua vitória no Oscar é quase garantida. É claro que as músicas são poderosas e funcionam, porém, a narrativa fica cansativa quando, em uma simples conversa, tudo é musicado e teatralizado. Situações banais viram músicas cheias de caras e bocas. Mesmo a adaptação vinda do teatro, não há como negar que existe um exagero. Aqui, temos um filme corrido, com uma edição confusa, personagens aparecem e somem sem que fiquem um tempo necessário na tela. Parece uma junção de episódios cantados que até enchem os olhos, mas que dão a sensação de que não serviram pra nada.

Hooper parece ter esquecido que o filme não possui atos como em uma peça de teatro. Essa rapidez e confusão exige que o público conheça um pouco da trama, já que as personagens não são tão desenvolvidas para que as pessoas se importem. Talvez, se Hooper não tivesse musicado tanto ou dividisse o filme em partes o resultado fosse melhor. Nós vemos a resolução de um conflito e, logo após, a trama pula 9 anos e tudo começa outra vez. E lá vem mais música.
As atuações, como já esperado, são excelentes, embora, repito, Anne Hathaway roube qualquer brilho. Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter estão divertidíssimos com suas canções de aproveitadores. Amanda Seyfriend e Eddie Redmayne também estão ótimos, embora o roteiro não os favoreça, já que o amor dos dois não convence. Russel Crowe como cantor é um ótimo ator e segura bem o papel de vilão, sem nunca cair na antipatia.
"Os Miseráveis" gerou muita expectativa desde o seu primeiro trailer e por se tratar de uma obra tão importante. Não é um filme ruim, mas também não é nada marcante. Vale a pena vermos as histórias daquelas pessoas, as manifestações da época e os temas que Victor Hugo abordou. Hooper consegue mostrar com brilhantismo a esperança, os sonhos e a miséria humana. Porém, fica a impressão de que te prometeram um filme poderoso, mas te entregaram pequenos bons momentos, e que os outros demoram muito a passar.
Indicações:
Melhor filme
Melhor ator (Hugh Jackman)
Melhor atriz coadjuvante (Anne Hathaway)
Melhor canção original ("Suddenly")
Melhor maquiagem
Melhor figurino
Melhor direção de arte
Melhor mixagem de som

Sim, concordo com tudo!Também achei muita música.
ResponderExcluirNo final, quando agente acha que vai acabar, vem mais uma cena que não quer dizer quase nada e ainda com mais música!
Tua última frase resume minha sensação, mas ainda assim, valeu a pena ter assistido!
Beijo, Mari.