Apesar de ser um apaixonado declarado por cinema, confesso que não assisti todos os filmes indicados ao Oscar nem os tão mega elogiados. Porém, nunca é tarde pra mudar e "O Segredo de Vera Drake"(2004) é um deles.
Londres, 1950. Vera Drake (Imelda Staunton) mora com seu marido Stan
(Philip Davis) e seus filhos já crescidos, Sid (Daniel Mays) e Ethel
(Alex Kelly). Eles não são ricos, mas formam uma família feliz e unida.
Vera trabalha como faxineira e Stan é mecânico na oficina de seu irmão.
Porém, Vera mantém uma atividade paralela que esconde do resto da
família: sem aceitar pagamento, ajuda jovens mulheres a abortarem.
Quando uma dessas garotas precisa seguir para o hospital, a polícia
começa uma investigação que faz o mundo de Vera desabar.
Dirigido com extremo cuidado por Mike Leigh, "Vera Drake" não levanta bandeira para a questão da legalização do aborto, crime ou castigo. O filme entrega ao público a história crua, sem reviravoltas, construindo lentamente todas as situações. E, se você não gosta de filmes tristes, passe longe deste. Não apenas arranca lágrimas como deixa o público incomodado, o que garante boas conversas após a história.
Imelda Staunton - indicada ao Oscar por esta atuação - merece todos os elogios que recebeu. Sua Vera consegue emocionar fortemente e sua inocência ao se dar conta que sua atividade era considerada um crime monstruoso é formidável. É claro que muito do que vemos em cena é trunfo da direção de Leigh, já que apenas a atriz e as meninas que recebiam ajuda é que sabiam que a história tratava de aborto. O restante do elenco gravou sem ter a mínima ideia do tema central do filme, assim como não foi escrito roteiro.
Por falar na direção, Leigh continua usando da técnica do improviso. A cena em que a polícia chega na casa de Vera para interrogá-la foi feita sem aviso. Nem a própria atriz sabia que seria detida e o resultado é a reação que vemos em cena, capaz de causar arrepios tamanha a veracidade de Imelda.
"Vera Drake" vai se revelando aos poucos. Enquanto vemos a personagem cuidar da casa, da mãe e do vizinho doente, assistimos a senhora visitar a casa de algumas meninas e, cuidadosamente, realizar o aborto. Munida de uma seringa, desinfetante, sabonete e água quente, Vera acredita estar ajudando as garotas. E o fato dela não cobrar nada pelo serviço é um detalhe muito importante pra não julgarmos as ações da personagem. Afinal, de meras testemunhas oculares, de uma hora pra outra, viramos cúmplices. E agora?
A grande questão do filme é que começamos a julgar Vera ao mesmo tempo que assistimos o horror de cada passo dado pela justiça. Desde sua chegada ao tribunal até o final, acompanhamos todos o processo com um dedo apontado na nossa cara. A hipocrisia da sociedade chega a nos incomodar. Nós também somos assim? Não há sentimentalismo, não há gente bonita, não há uma cena que vá acalmar os ânimos e apareça uma luz dando a possibilidade de tudo acabar bem. O público já sabe o que esperar no final e, mesmo assim, assiste tudo com um gosto amargo na boca. Assim como "Dançando no Escuro", de Lars Von Trier, testemunhamos um crime sem saber formar opinião se ela é culpada ou inocente, o que torna a obra perturbadora.
Com um orçamento baixíssimo, o que vemos em cena é - na maioria das vezes - improvisação. Sem dinheiro para pagar direitos autorais, a trilha sonora é basicamente feita pelas personagens, que cantarolam o tempo todo. Todo esses "problemas" trazem um realismo necessário ao filme e não é de se admirar que tenha levado tantos prêmios. Aliás, o Oscar 2005 cometeu uma grande injustiça ao não dar o prêmio de Melhor Atriz à Imelda Staunton (quem ganhou naquele ano foi Hillary Swank, por "Menina de Ouro"). A atuação dela mexe com qualquer pessoa.
Moralidade, legalidade, relação entre classes sociais e importância da família são alguns casos que podem ser discutidos ao longo do filme, porém, Leigh não entrega tudo mastigado ao público. Sem jamais subestimar a inteligência, o diretor cria uma gama de sentimentos que podem ir do repúdio até ao amor por aquela velha senhora.
É complicado escrever sobre, mas o que vemos ali é uma mulher que faz um crime puro. Sem nenhuma maldade, Vera acredita que está ajudando aquelas garotas, mesmo sabendo que é um crime. "O Segredo de Vera Drake" mostra o cuidado com pequenos detalhes como poucos e é honesto como poucos. Não vá assistir pensando em julgá-la. Talvez você se surpreenda com sua própria reação.





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