domingo, 22 de janeiro de 2012

Mídias sociais, telefone celular, governo americano e um enterrado vivo

Os críticos especializados são unânimes. "Enterrado Vivo" ("Buried") é claustrofóbico, tem um roteiro original e bem escrito, a atuação de Ryan Reynolds é boa e uma trilha sonora impecável. Sim, o filme é tudo isso, mas poderia ser só uma grande denúncia à guerra do Iraque promovida pelos EUA, o poder das mídias sociais e as companhias de celular (ou as pessoas que não atendem o telefone). Tudo isso com um único ator dentro de um caixão.

Filme de estréia do diretor espanhol Rodrigo Cortés, "Enterrado Vivo" conta a história de Paul Conroy (Ryan Reynolds), um americano motorista de caminhão no Iraque que acorda, sem saber como, enterrado vivo dentro de um caixão de madeira. Sem saber o que aconteceu e o porquê de estar ali, ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Começa então uma tensa corrida contra o tempo e a falta de ar. E a pressão aumenta ainda mais quando os sequestradores exigem um resgate milionário para libertá-lo e um vídeo com suas imagens vão parar no YouTube. 

Vale de tudo. Em 90 minutos, vemos a via crucis de Paul para salvar sua vida. Não há muito o que falar sobre o enredo porque isso prejudica a trama para quem não viu, mas o por quê, por quem e para quê serão respondidas lenta e desesperadoramente até o final do filme. Nisso, nós vemos o desespero de Paul ao tentar ligar para sua casa e cair apenas na caixa postal. "Pra onde foi todo mundo?" Vemos Paul ligar para o 911 e a burocracia da atendente simplesmente torna inviável o pedido de ajuda e chega até ser engraçado alguns momentos em que ele precisa lembrar o número do seu seguro social. Preso num caixão no meio do nada e ainda se irritando com empresas de telemarketing.

As negociações com o sequestrador beiram o absurdo, mas absurdo maior é quando a personagem tenta obter ajuda do governo dos EUA, que parece fazer de tudo, menos tentar encontrá-lo. O roteiro de Chris Sparling constrói diálogos relevantes e reflexivos sobre o sistema americano e o texto final é uma grande e inteligente ironia.
 
Mas, falando da estrutura narrativa do filme, a angústia reina absoluta. Lembrando obras como "Mar Aberto" e "127 Horas", o diretor consegue facilmente levar o espectador pra dentro do caixão com Paul. Cortés, que usou sete caixões com aberturas diferentes, e muitas vezes apenas a luz emitida pelo celular ou pelo isqueiro, dá ao filme uma movimentação impressionante para um projeto que se passa em um espaço menor de 1 metro cúbico. O jogo de câmera ousa em todos as cenas. Ryan Reynolds segura bem seu papel, apesar de não demonstrar tanto desespero assim. A trilha sonora é um dos - senão o maior - efeitos positivos para tanta agonia.


Contrariando a maioria dos críticos de cinema que chegaram a comparar Rodrigo Cortés à Alfred Hitchcock, não achei o filme tão excepcional assim. Acima da média, sem dúvida, mas não tão revolucionário como parece. É claro que ele entrega o que promete e os méritos descritos acima são sensacionais, porém, o mais interessante é perceber que, até mesmo na situação mais extrema, estamos reféns não só de terroristas ou lunáticos, mas de toda uma burocracia que usa a desculpa de "protocolos" apenas para tirarem os seus da reta. Sua ligação é muito importante para nós. Aguarde na linha enquanto morre aos poucos. E não precisamos estar num caixão abaixo do chão pra isso.

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