quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"American Horror Story" ousou, mas nem precisava


Assim como aconteceu com "True Blood" em sua primeira temporada, "American Horror Story" tornou-se a série mais vista de um canal fechado. Sua season finale atraiu cerca de 3,4 milhões de pessoas. Ryan Muprhy - criador de "Glee" - voltou a fazer o que mais sabe: escrever roteiros absurdos, com cenas chocantes, mesmo que não faça muito sentido e subestime a inteligência do espectador. O legal é que ele faz isso muito bem, mesmo quando a coisa é ruim. Ora, você nunca viu "Nip/Tuck"? Deveria.

Pra quem não sabe, a história não é diferente de tantas outras. A família Harmon se muda de Boston para Los Angeles depois que a mãe sofre um aborto e o pai tem um caso extraconjugal. No novo lar, eles descobrem que a propriedade guarda segredos e histórias horripilantes. É claro que Murphy choca. Lá pelas tantas, um cara aparece com uma roupa feita de látex e transa com a matriarca (que não desconfia de nada, porque quando o seu marido aparece sem falar nada vestindo uma roupa preta assustadora você age normalmente e acha sexy. Só que ele não é seu marido), uma criança deformada mora no sótão da casa, a empregada de uns 60 anos tem um jeito estranho, mas aos olhos dos homens infiéis ela é uma garota sensual, cérebros humanos são servidos no jantar porque isso faz bem ao feto e muito, muito, muito mais. Tudo bem, não é uma história de horror americana, mas é uma história divertidíssima de horror americana.

Jessica Lang 

As atuações - que começaram tão fracas - vão melhorando a cada episódio. É visível a interação das personagens. Vivien - a mãe - interpretada pela incrível Connie Britton ("Friday Night Lights"), começou meio perdida e acertou o tom, sendo a única a perceber que o certo era sair correndo daquela casa. Taissa Farmiga - irmã da Vera Farmiga, aquela linda - foi uma grata surpresa e fez a adolescente chata sem fazer o público se irritar. O marido infiel Ben (Dylan McDermott) não foi lá muito impressionante, mas cumpriu direitinho seu papel. Tivemos a volta da sensacional Frances Conroy ("Six Feet Under") interpretando a governanta da casa. Mas a série não é de nenhum deles. Ela pertence à Jessica Lange, que interpretou a vizinha Constance, que sabia de tudo e escondia de todos. A mulher simplesmente roubava todas as cenas e nem precisava falar nada. Seu olhar, o jeito de fumar, o modo de pronunciar, seu jeito de andar. Tudo era digno de aplausos. Tanto que até agora não sei se devo odiá-la ou sentir pena. Emmy pra ela já!

 BU!

O interessante é que Ryan Murphy e Brad Falchuk - também criador da série - fizeram um samba do criolo doido lá pela metade da temporada e tudo parecia uma confusão só. Cada episódio entregava mais personagens e virou a casa maluca. Era fantasma correndo pra lá, a mulher gritando pra cá, o marido achando que a esposa está ficanso louca (zzz...ZZ), a amante do marido baixando a cabeça jurando vingança, o cara com o rosto deformado cobrando um dinheiro e assustando todo mundo e mais, muito mais. Até que eles resolveram parar com isso e explicar. Aí eles acertaram. A história de todos esses fantasmas mostrou-se interessante e relevante pra todo aquele roteiro doido e foi a partir desse momento que os roteiristas resolveram arriscar. Mataram personagens queridos, deram explicações ousadas e continuaram a matar todos os finais felizes.

O último episódio fechou muito bem. É claro que teve muita cena ridícula, mas a série inteira, se for analisar friamente, é meio ridícula. Não dá pra levar a sério uma história com tanta bizarrice sem sentido e todos os roteiristas parecem ter entendido isso. É sentar, levar alguns sustos e se envolver com a família. Outra vantagem - inteligentíssima e lucrativa - é que cada temporada terá uma nova história e uma nova casa. Assim, nem os atores ficam presos aos papéis por anos, nem os roteiristas ficam engessados numa história linear pra cada temporada.

"American Horror Story" foi indicada à Melhor Série no Globo de Ouro, mas não merecia. Isso não quer dizer que ela é ruim, mas se você se importa com premiações, é outro belo motivo. Vai, aproveita que a temporada acabou e dá uma chance. É um "Os Fantasmas se Divertem" moderno. Sente, apague a luz e fique viciado. É diversão garantida.

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