Ao contrário do que os críticos especializados andam dizendo, o drama francês "Tomboy" (algo como "menina que se comporta como menino") não usa a temática gay como base. É mais uma obra sobre identidade pessoal e construção do caráter do que propriamente orientação sexual, embora o a personagem sinta atração pelo mesmo sexo. Dirigido pela francesa Céline Sciamma, o filme conta a história de Laure - vivida pela surpreendente Zoé Héran - que aproveita a mudança da família para outro bairro e, sendo confundida com um menino, decide se passar por um. O que vemos a partir daí são vários retratos que vão do fim da infância, descoberta da sexualidade e relacionamento familiar.
Em nenhum momento o tema preconceito é dito no filme, pelo contrárioem. Em uma das cenas, a mãe de Laure diz que não vê problema que a filha brinque de menino. E não é surpresa quando começamos a confudir a menina Laure com o menino Michael - nome que a garota se autointitulou. A menina não se sente desconfortável ao se comportar como um menino. É justamente o contrário. E é natural.
O relacionamento com a irmã mais nova é feito delicadamente. Tão delicado que o simples olhar das duas meninas já mostra a cumplicidade da relação e em momento algum a inteligência da menor é subestimada. Ela sabe que sua irmã finge ser menino e até gosta, já que "é legal ter um irmão que a defenda", e é emocionante a cena do jantar em que ocorre uma aceitação feita pela criança. Ao mesmo tempo, é visível a comparação que fazemos - e percebemos que Laure também faz - com o comportamento feminino da irmã mais nova e o jeito masculino da mais velha. A ingenuidade é tratada de forma brilhante. O público sabe que Laure não vai conseguir manter sua mentira por muito tempo e isso nos leva a acompanhar o raciocínio da menina, trazendo uma experiência vívida sobre as incertezas e descobertas que a vida traz.
Não é um filme sobre homossexualismo. O comportamento de Laure pode ser permanente ou não, mas em jamais as persoagens discutem isso. A mentira doeu mais do que o fato. No fim, é uma história simples sobre inocência, descoberta da identidade e formação de caráter. Uma criança pode ser carinhosa ou cruel, mas antes de tudo, ela é sincera.



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