Histórias sobre o Holocausto já foram exploradas incansavelmente, tanto pelo cinema quanto pela literatura e não parecem ter fim."O Menino do Pijama Listrado" é um dos diversos livros aclamados pela crítica e que já vendeu mais de 5 milhões em todo mundo (algo não muito difícil quando se trata do horror aos judeus. Os americanos adoram). Na história, Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final
contra os judeus. Também não faz ideia de que seu país está em guerra
com boa parte da Europa, e muito menos de que sua família está envolvida
no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que foi obrigado a abandonar
a espaçosa casa em que vivia em Berlim e mudar-se para uma região
desolada, onde ele não tem ninguém para brincar nem nada para fazer. Da
janela do quarto, Bruno pode ver uma cerca, e, para além dela, centenas
de pessoas de pijama, que sempre o deixam com um frio na barriga. Em uma
de suas andanças Bruno conhece Shmuel, um garoto do outro lado da cerca
que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos
dois se intensifica, Bruno vai aos poucos tentando solucionar o mistério
que ronda as atividades de seu pai.
O livro prima pela inocência e a ótica de Bruno ao tentar analisar os horrores da II Guerra Mundial. Com capítulos curtos e diretos, cada análise da criança é um quebra-cabeça que vai se encaixando até a descoberta final e não é surpresa quando, mesmo já sabendo da história, o leitor consiga refletir junto com Bruno os motivos daqueles fatos. Por que o criado aparecia sempre mais magro e fraco? Por que, ao cair do balanço e ser socorrido por um judeu, a mãe recomenda que ninguém saiba disso? Por que a fumaça preta no céu fede tanto? Por que eles não são "pessoas como nós"?
John Boyne escreveu a obra em apenas duas semanas e a fez com maestria. Perturbador, o livro não escancara e nem utiliza clichês para emocionar (é sempre esse o motivo) e é justamente a inocência de Bruno que mostra o terror de uma época em que ninguém deve esquecer. Com sutileza, Boyne não é unilateral, apontando atitudes admiráveis em alguns alemães, principalmente a mãe do garoto. Sutilmente também, o autor mostra que algumas pessoas simplesmente não faziam ideia do que acontecia nos campos de concentração. O grande mérito é que Boyne consegue escapar de todos os momentos que poderiam ser extremamente piegas, porém, de tão simples, o livro se torna uma fábula sobre a amizade, tendo como pano de fundo os horrores da Alemanha nazista.
Com um orçamento visivelmente pequeno, as cenas não chocam tanto como deveriam - ao menos é o que o produtor queria - e a atuação do pequeno Bruno (Asa Butterfield) é robotizada ao extremo. A direção peca em apostar no grande olho azul do menino e um rosto confuso, achando que bastaria para passar a grande aflição do garoto em tentar entender o que acontece. Outra grande falha é o equilíbrio entre a sutileza e os momentos dramáticos. Certos momentos exigiam (e ficariam muito melhores) que as cenas fossem carregadas de mais informações e drama, assim como outras partes poderiam ter sido suavizadas, já que se tornava mais do mesmo e já vimos isso em diversos filmes sobre o tema.
Porém, Herman acerta em mostrar a alienação que a Alemanha colocava. Numa bela cena, vemos a irmã de Bruno, Gretel (Amber Beattie) colocar suas bonecas de lado e colar pôsteres sobre o nazismo e o culto à Hitler. Assim como logo no ínicio, Bruno e seus amigos brincam alegremente, enquanto bandeiras nazistas fervilhavam a cidade e judeus eram levados embora. Outro grande acerto foi a escolha dos atores para viver os pais de Bruno. Interpretada pela sempre ótima Vera Farmiga, a atriz carrega o filme nas costas e é responsável pela parte mais dramática do longa. Assim como David Thwlis (o Lupin, de Harry Potter) mostra o lado paternal de um comandante de Hitler.
Mesmo com todos esses problemas, o filme consegue alcançar o propósito de ser um arranca lágrimas fácil. É sempre bom naquelas noites chuvosas em que você quer ver um drama, não necessariamente bom. Ainda vale mais desligar a TV e ler o livro.


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