domingo, 27 de novembro de 2011

"O Casamento de Rachel"


"O Casamento de Rachel" (Rachel Getting Married - 2008)
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Jenny Lumet
Elenco: Anna Deavere Smith, Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Debra Winger, Bill

Dramas familiares são comuns no cinema. Bons exemplos são "Feliz Natal" e "Festa em Família", dois longas que não caem no clichê ou no cafona. "O Casamento de Rachel" consegue mostrar o drama de uma família disfuncional e ainda colocar questões políticas no meio.

Quando Kym (Anne Hathaway) volta para a casa da família Buchman para o casamento de sua irmã Rachel (Rosemarie DeWitt) , ela traz uma longa história de crise pessoal, conflitos familiares e tragédia junto com ela. O abundante grupo de amigos e conhecidos do casal foi reunido para um final de semana alegre de muita comida, música e amor, mas Kym – com seu humor mordaz e sarcástico e com seu talento para dramas arrasadores – é um catalisador na dinâmica da família, despertando tensões há muito mantidas em ponto de ebulição.

A direção de Jenny Lumet é impecáve ao retratar Kym não apenas com a ovelha negra da família, mas mostrando que - mesmo com seu comportamento reprovável - a família mantém grande parte do problema. Aliás, o filme conta uma história em que todos tem culpa e todos são inocentes, mas que as situações retratadas durante o longa foram formando pessoas com traumas e problemas que, uma hora ou outra, colidem com diversas situações.
  
Anne Hathaway conseguiu seu divisor de águas. Antes conhecida por comédias românticas, Hathaway mostra que não é apenas uma atriz simpática, mas entrega uma Kym intensa e cheia de nuances. Seus olhares passam toda a angústia de ver uma família que tenta se reestruturar com sua volta, percebendo que, ao mesmo tempo em que estão felizes, a tensão de que algo vai acontecer a deixa mais difícil do que realmente ela é. E não é surpresa quando toda a família fica desconfortável quando Kym se mostra bem, mas quando esta começa a dar sinais de desequilíbrio, aquelas mesmas pessoas agem com mais naturalidade, já que voltaram a exercer o papel de críticos.
  
A construção dos personagens é primorosa. Nenhum deles é compreensivo ou irritante o tempo todo. É é perturbador perceber uma estranha familiaridade em algumas cenas. A mãe que prefere se afastar de todo o drama, para que assim não precise se envolver. O pai que tenta encobrir os coflitos e ver sempre o lado positivo. Ou a filha que suplica a atenção total do seu pai, pedindo pra que ele olhe somente ela e esqueça um pouco a irmã. Ao mesmo tempo, a problemática da família mostra que precisa chamar a atenção e, pra isso, utiliza todo o seu drama pra que as pessoas a vejam.

É interessante a visão do diretor ao mostrar aquelas pessoas completamente livres de preconceitos. O fato de Rachel estar casando com um homem negro (ou seu pai ser casado com uma mulher negra) é algo que jamais inspira nenhum comentário. Nas mãos de outro direitor ou roteirista, isso poderia ser transformado numa grande discussão racial. Jonathan Demme mostra que, ás vezes, o preconceito vem da própria discussão.

No fim, o que vemos é uma família muito parecida com a de cada um. Com uma grande tragédia como pano de fundo, o longa nos leva à reflexão de como se reestruturar dentro de um ambiente tão complicado como o familiar. Sem nenhuma conclusão final, o longa mostra que aquela família ainda tem um longo caminho para superar seus traumas e recomeçar. E as situações vividas ali são extremamente realistas.

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