Massacres em escolas já não são novidades, principalmente nos EUA, em que eventos como esses já se tornaram corriqueiros. No Brasil, o caso Realengo ainda rende assunto, principalmente nas revistas, que fazem análises sobre o comportamento humano e crianças agressivas. Mas e os pais?
A escritora Lionel Shriver estudou diversos casos de adolescentes que assassinaram colegas e professores em colégios estadunidenses. Com uma coletânea de mentes perturbadas, Shriver montou um romance epistolar que vai muito além da rasa discussão sobre os pesadelos americanos. Precisamos falar sobre o Kevin escancara, com uma sinceridade desconcertante, os mais profundos pensamentos que são, digamos, proibidos pela sociedade: uma mãe, obrigatoriamente, ama o seu filho? A culpa do distúrbio de comportamento de uma criança é exclusivamente dos pais? Durante as 463 páginas, lemos as longas e detalhadas cartas de uma mulher ao seu marido. Eles precisavam falar sobre o Kevin. E nós também precisamos.
Considerado um romance "inadaptável", a diretora irlandesa, Lynne Ramsay, conseguiu o feito de transportar para as telas um drama nada convencional. Eva (Tilda Swinton) é mãe de Kevin (Ezra Miller), adolescente que cometeu assassinato em massa em sua escola. Sem conseguir entender as ações do filho, ela tenta lidar com sua dor e o sentimento de culpa, por se sentir responsável pelo fato. Embora o livro (como de costume) seja muito mais rico em detalhes, a diretora fez uma linda adaptação, que pode ser definida como um soco no estômago. A hipocrisia nunca teve tantas consequências.
Diante de cenas nada fáceis para os olhos do espectador, somos levados à mente da mãe e do filho, deixando o entorno apenas como a consequência dessa relação que, desde sempre, nunca foi natural. O esforço de Eva em amar o seu filho é mais por algo que a sociedade espera do que pelo próprio sentimento. Em uma tentativa frustrada de brincar com seu filho, Eva joga a bola para Kevin esperando que ele a jogue de volta, o que de fato acontece, mais por um jogo de manipulação do que por um passatempo dos dois. E se, num pensamento rápido e raso, colocamos toda a culpa em cima de Eva, essa conclusão logo se torna confusa, já que, quando Kevin demonstra um pequeno interesse e carinho pela mãe, esta se torna carinhosa e feliz por estar ao lado do filho.
A diretora não filma de forma tradicional. Em cenas com cortes secos, trilha sonora angustiante (composta pelo guitarrista do Radiohead), alternando músicas felizes que ironizam as cenas aterrorizantes, o clima de anormalidade se instaura desde a primeira cena. E se a maioria delas mostra Eva envolta em tons vermelhos - a casa depredada pelos cidadãos, o banho de tomate, as mãos sujas de tinta vermelha - o recurso, que não é nada sutil, cabe perfeitamente no filme, já que a sociedade a culpa pelo derramamento de sangue do filho. Contar uma história de forma não linear também não é nenhuma novidade, mas a edição se mostra acertada ao alternar as fases da vida da mãe, já que vemos uma mulher cheia de energia se transformando em resquícios de uma pessoa cuja a forma conhecida de vida lhe foi tirada e não há condições de que possa vivê-la novamente. Toda essa montagem despadronizada das produções de Hollywood faz com que mergulhemos em uma experiência única, capaz de render debates durante dias. Somos forçados a conversar sobre a natureza humana como ela pode ser, e não como nos ditam ser.
E se a mãe é a discussão central da história, o pai não aparece muito, apesar da ligação direta entre os dois. Mesmo assim, o personagem jamais é desperdiçado. Enquanto Eva enxerga o filho como um ser humano frio, o pai coloca desculpas por meio de clichês. O menino é apenas um adolescente, toda criança faz isso, você não entende os garotos. Para os mais puritanos, a postura do pai é exemplar; para outros, a mãe estava certa o tempo todo. Mas em uma história em que certo e errado não podem ser definidos, vemos apenas as reflexões de uma mulher que tentou entender sua própria cria, mesmo com medo da resposta.
Se as cenas são brilhantemente dirigidas, as atuações complementam e fazem o filme se transformar em obrigatório. Tilda Swinton está impecável interpretando a aflitiva Eva Khatchadourian. Os olhos de Tilda vão do horror à tristeza e, por mais que a história seja de difícil identificação, ela nos leva à dor e a confusão de todos aqueles acontecimentos. John C. Reilly entrega sua habitual e perfeita atuação. Mas o papel de monstro foi escolhido a dedo em todas as fases. Vivido por Jaspear Newell na infância e por Ezra Miller na adolescência, as atuações dos dois - principalmente de Miller - se tornam aquelas em que tomamos referência para falar sobre o ator. A frieza de Miller é louvável quando precisamos de apenas olhares para entendermos que as situações mostradas ali não são pequenos fatos isolados e normais, mas um trabalho de uma mente perturbada que merece atenção. Mais uma vez, falar sobre Kevin é essencial.
Não entregando as respostas que todos esperam, tanto a diretora quanto a escritora deixam que a conclusão seja tirada pelo público, caso haja uma. Talvez, o objetivo da obra seja um aviso sobre os estereótipos pintados pela sociedade. Nem toda mãe é celestial, nem todo filho é uma dádiva, nem toda criança ama seus pais e nem todas as questões consideradas perturbadoras podem ser ignoradas apenas por causarem incômodo.




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